quinta-feira, 13 de abril de 2023

Perto do vulcão

  

Vulcão Osorno
                              

Já havíamos ido uma vez ao Chile, mas, na ocasião, ficamos de voltar para conhecer uma belíssima parte a qual mereceria uma viagem só para ela, a região dos Lagos. Com uma natureza exuberante, seria necessário dedicar um tempo justo para desfrutar dos lugares a que pretendíamos ir.

Foi com esses planos que três anos depois desembarcamos em Valdívia. Lá alugamos um carro e seguimos para Pucon. Logo na chegada, gostamos do que vimos na pequena cidade às margens do lago Villarrica. Tudo muito organizado e um lugar preparado para as intempéries do vulcão de mesmo nome, seu guardião. Um pedaço de rocha ativa onde suas lavas fervem e sua fumaça está sempre lá, lembrando a sua presença. Quando está na calmaria, é um local de visitação. Fomos até a sua base, uma estação de esqui, de onde as pessoas partem para a subida, porém estava fechada. Aproveitamos para tirar fotos, no entanto, para escalar até o seu cume, somente com a ajuda de um guia e muito cedo, pela manhã e, além disso, com roupas apropriadas e alugadas pelas empresas que

levam os turistas. Não fomos ao topo, mas tivemos uma bela visão desde a casa de onde partem os esquiadores no inverno. Vimos a sua fumaça ameaçadora que culminou em uma explosão, um mês depois de passarmos por lá. A erupção não deixou vítimas, porque a cidade está sempre preparada com rotas de fuga e alarmes. Apesar de seus perigos, é um local que conserva o toque da natureza.

De lá voltamos para Valdívia, onde vivemos outras experiências e nos encantamos com os leões marinhos, andando pelo mercado de peixes, ou sobre pequenas plataformas de madeira, muito ambientados entre os humanos.

Continuando nosso roteiro de lagos e vulcões, fomos para Puerto Varas. Lá ficamos hospedados em um aconchegante hostel, que era como se fosse a casa de um parente próximo. Um lugar que impressiona pela visão do imponente vulcão Osorno. De quase todas as partes era possível vê-lo. Fizemos um passeio de barco, onde tínhamos a ilusão de que ele nos seguia a todo momento. Uma visão que fisgava o meu olhar e me fazia querer fotografá-lo a cada ângulo.

Como não podia deixar de ser, marcamos um dia para conhecê-lo pessoalmente. Fomos até o restaurante que fica na sua base e lá meu marido e meu filho colocaram um calçado especial para pisarem sobre o gelo. Eles pegariam um teleférico e chegariam próximo ao cume, onde fariam uma caminhada. Destemidos, começaram uma subida onde encontraram uma placa, alertando que dali em diante, os riscos que ocorressem seriam de responsabilidade do andarilho. Entretanto, só depois de encontrarem uma cruz com uma triste história de alpinistas audaciosos que ali perderam a vida, retornaram para a zona segura.

Enquanto isso, resolvi fazer a minha própria aventura para tentar chegar perto do pico. Segui uma trilha de madeira que percorre partes da montanha próximo de onde estávamos. Acreditando que era só seguir os passos traçados, comecei a caminhar por um trajeto por trás do restaurante. Depois de um tempo, descobri que existiam bifurcações e que eu poderia me perder. Em alguns trechos descia, em outros, subia. Quando parei, um pouco fora da trilha, estava exausta, porque era meio alto. Havia escolhido um ponto de referência para fazer isso, porque, na parte seguinte. a madeira escorregava. Em um instante. olhei para trás e fiquei meio confusa. De repente. Fiquei sem saber de qual direção eu havia saído, pois parecia tudo igual. Ali descobri o quanto é fácil se perder na montanha. Fiquei um pouco tensa, mas ao analisar o entorno, vi os cabos do teleférico que levam ao restaurante e pensei que era só me guiar por eles. E foi o que fiz. Logo avistei o ponto para onde retornaria e me acalmei. Ao chegar, entrei e sentei a uma mesa.

Após o retorno dessa aventura mal engendrada, tentava pensar em uma forma de fazer parar o queimor que sentia no rosto. Quando subi, me deparei com um forte vento gelado que arrastava uma nuvem a qual havia sido um dos fatores que me assustaram. Ela estava quase chegando onde eu havia parado e se eu não tivesse retornado rapidamente, não enxergaria mais o caminho e não suportaria a temperatura que estava na montanha. O vento havia queimado minhas bochechas e por isso o ardor. Comecei a colocar minhas mãos frias no rosto para aliviar, depois fui para o banheiro molhar com água da torneira até acalmar aquela sensação.

Quando meu marido chegou do passeio ao Osorno, contei-lhe o ocorrido. Ele já havia lido inúmeros livros sobre escaladas em montanhas e entendeu pelo que viu lá, o quanto é um cenário perigoso. Depois dessa, não fizemos mais nada parecido. Ouvimos histórias assustadoras a respeito e hoje temos a certeza de que são lugares que, para leigos, devem ser visitados apenas com guias profissionais e bastante qualificados.

Esse vulcão, embora ativo, não fumaçava como o outro. Seu aspecto se assemelha ao monte Fuji, promovendo uma paisagem cinematográfica. Esse não explodiu desde que saímos de lá. É de se esperar que um país com cerca de 2000 vulcões, dos quais, em torno de 30 ativos, apresente muitas obras da natureza lapidadas por esses movimentos extremos do planeta. Não é à toa que a região dos Lagos possua geleira negra, termas e lagos que tanto nos atraem para conhecê-los. Foi por este motivo que tomamos banho nas termas Los Pozones, percorremos de barco o lago cor de esmeralda, Todos Los Santos, e o grande Llanquihue, e fomos visitar o Osorno. Afinal, era preciso, inevitável chegar perto, bem perto!

13/04/2023