sábado, 22 de junho de 2024

Na sagrada obra-prima


                          Passadiço                                 Gotemburgo I                          Sagrada Família     

Ao desembarcarmos na agitada Barcelona, a capital da Catalunha, não imaginávamos nos depararmos com a sua avenida mais famosa, a Rambla, apinhada de turistas, primordialmente, orientais. Nosso hotel ficava na Plaça Reial, outro ponto de vai e vem de turistas, feirinha, restaurantes e até de passagem de grupos devotos Hare Krishna, cantando e dançando. Apesar do barulho desses transeuntes e comerciantes, isso não era um problema já que havia isolamento acústico no quarto.

Como já era final de tarde quando nos instalamos, fomos passear pela Rambla e pelo famoso mercado La Boqueria, por serem próximos da Reial. Ao entrarmos lá, avistei framboesas em uma das barracas, apetecida peguei uma caixa e fui pagar. Infelizmente tive a lamentável surpresa de ser repreendida pelo vendedor que me insultou por ter pego a caixa. Para ele, eu não poderia pegar nada antes de pagar. Atitude a qual nunca havia vivenciado em países por onde já passei, principalmente em um mercado público. Mas o mal não foi muito além, pois em uma banca próxima, comprei minhas frutas naturalmente. Como já era hora de jantar, aproveitamos e comemos deliciosas iguarias em um dos quiosques e tomamos um bom vinho da casa.
 
No dia seguinte, foi ocasião de conhecer o bairro Gótico com suas ruelas e incríveis construções medievais e igrejas cheias de opulência, como a Catedral de Barcelona e a Basílica Santa Maria del Pi. Há também a imperdível Calle de Bispe, onde existe o conhecido passadiço "Ponte del Bispe”, construído em 1928, um dos últimos restantes. Era usado principalmente na época das pestes, para que os nobres não precisassem caminhar entre os pobres nas ruas. Foi nas imediações desse bairro que passamos pela hilária loja "Caganer", com bonequinhos com as calças arriadas em posição "fecal", representando milhares de personagens reais e fictícios do mundo inteiro, do papa aos astros do rock, incluindo os robozinhos de Star Wars. É claro que compramos um.

O próximo passeio seria a nossa primeira experiência com as obras de Gaudí: o Parque Guell. Um lugar de lazer lotado de visitantes de dentro e de fora da cidade. Um espaço que combina natureza e arte. Casas, arcos, colunas, torres, bancos, animais, paredes, tudo ao estilo Gaudí com suas curvas e detalhes em azulejo colorido. De lá pudemos gozar de uma grande visão da cidade e o que não faltou foram recortes fantásticos de cantos e recantos para fotografarmos. Ficamos empolgados com o aspecto único encontrado.

No entanto, havia muito mais desse genial arquiteto catalão, então almoçamos e fomos andar pelo bairro de Grácia, onde encontramos a primeira construção dele, a casa Vicens, repleta de seu estilo e para impressionar, como tudo o que ele projetava. Logo depois, vimos a casa Fuster. Após nos deliciarmos com os prédios desse lugar, onde cada edifício antigo parecia uma obra de arte, chegamos ao êxtase com a visão das casas Batlló e Milá. Começando a anoitecer então, vimos quando essas casas, uma próxima da outra, foram iluminadas com luzes projetadas para exaltar a beleza do lugar, acentuando a admiração do visitante. Foi um presente poder ver de perto o fruto de uma mente tão ímpar e criativa. Além dessas, havia a casa Amatller, a vizinha diferente, mas também extraordinária em seu estilo germânico, saltando também aos olhos do turista já sem palavras para definir toda aquela visão.

Como não faltam parques para conhecer, fomos nos perder no Parc del Labirint d'Horta, com seu labirinto de plantas, onde nos divertimos, procurando uma saída. De lá fomos para um lugar com uma bela paisagem marítima, o Calçadão de Madeira no Porto, a Rambla del Mar, uma passarela com linhas onduladas que leva ao Shopping Maremagnum. Para chegarmos lá, passamos pelo Monumento a Colombo, com uma estátua do navegador, de sete metros, situada no topo de uma coluna de ferro de 60 metros, uma imagem difícil de enquadrar pelo seu tamanho. Da marina vimos gigantescos navios e aves marinhas. Além disso, tivemos a sorte de vermos ancorado no porto o navio sueco à vela, Gotemburgo. Ele é uma réplica do também sueco East Indiaman Gotemburgo I, da Companhia das Índias, lançado em 1738 e afundado em 1745.

É preciso dizer, entretanto, que de todas as maravilhas vistas por nós na Espanha ou fora dela, nada se compara à basílica Sagrada Família, a rainha das igrejas, a obra-prima de Gaudí, que vem sendo construída há mais de 100 anos. Difícil de descrever ou comparar, considerando-se suas características, nunca reproduzidas em um templo católico. Suas inúmeras torres com detalhes e significados próprios protelaram a conclusão desse inimaginável monumento, que reúne o grande, o inusitado, o sagrado, e o surpreendente. Lá comprei um livro sobre as obras de Gaudí, porque depois de conhecer aquela criação, senti a necessidade de compreender a cabeça e a trajetória desse espírito cheio de inovação e talento, mesmo um século depois de sua maior realização. Algo que se tornou um mito, um motivo de controvérsia e discussões políticas. Contudo, a exuberância e fascínio que exerce são maiores que qualquer entrave surgido em seu caminho.

Após essa visita, tivemos a sensação de que não precisávamos ver mais nada naquela cidade. Mas, meu filho não queria ir sem conhecer o "Arco do Triunfo" de lá, então encerramos nossa passagem por Barcelona, depois de tirar boas fotos na via onde ele se projeta, o passeio de Lluís Companys. Uma avenida onde foram colocadas estátuas de bronze, representando as personalidades notáveis da história da Catalunha.

Cansados da longa viagem, decidimos antecipar nossa volta para Madri a fim de pegarmos o voo de volta, o que nos revelou a surpresa de ver um outro lado do centro, o qual não havíamos visto, com bares antiquíssimos em ruas cheias de beleza e um ar nostálgico. Foi uma empolgante despedida da Espanha e, para tanto, comemos um churrasco argentino no "Gaúcho", um restaurante atrativo para brasileiros e bem recomendado. Um bom fim de estrada.

22/06/2024

Tirando o chapéu

 

 

 
     Real Alcázar                               Nau no Rio Guadalquivir                              Plaza de España 

Ao sair de Madrid para a região da Andaluzia, o caminho natural seria Sevilha. Assim, desembarcamos de trem na terra mãe do flamenco. Como o próximo transporte seria o ônibus, tratamos de nos situar na única cidade grande da Europa, na qual utilizamos esse meio de locomoção. Foi estranho, mas com a modernidade da Internet e a organização da cidade foi fácil descobrir as linhas que nos levariam aos locais de interesse.

No primeiro dia, já fomos conhecer o agitado bairro de Triana. Sua famosa ponte sobre o rio Guadalquivir estava cheia de transeuntes, pelo espírito de descontração e agito dos restaurantes, bares e barracas abertos até a noite por ser um sábado. Após nos encantar com a beleza do reflexo das luzes da cidade sobre o rio e tirar fotos do lugar, demos uma volta pelas ruas próximas, jantamos e voltamos para o hotel, empolgados com a primeira impressão.

Começamos nosso roteiro, visitando a Catedral de Sevilha, inserida em um local de construções medievais, onde é possível voltar no tempo também por meio de um passeio em charmosas charretes. Lá entramos, pela primeira vez, em uma arena de touradas. Seria a praça de touros Real Maestranza, a mais antiga e de maior tradição da Espanha. Não que concorde com a prática do tratamento dado aos touros, mas não deixa de ser um lugar inexistente em nossa cultura e cercado de histórias que inspiraram filmes, músicas e óperas, entre outras demonstrações culturais. Algo tão novo, que não havíamos visto em outros países e enxergamos como uma espécie de Coliseu para touradas. Como fica perto do rio, fizemos uma agradável caminhada pela orla, onde nos empolgamos com uma réplica de uma nau do tempo dos descobrimentos e vimos a Torre del Oro. Um lugar inspirador.

Após almoçarmos uma deliciosa paella com vinho da casa, no centro da cidade, fomos conhecer a Plaza de España, no Parque Maria Luisa. Não havíamos imaginado a beleza e o quão agradável poderia ser. Assim que se abriu diante dos nossos olhos aquele espaço, envolto por uma grandiosa construção semicircular em estilo mouro, foi de tirar o fôlego. Ela representa os quatro antigos reinos da Espanha e é contornada por um fosso de águas esverdeadas com inúmeras pontes que dão acesso aos edifícios. Ao centro existe uma fonte e, nas paredes da Plaza, pisos em azulejo com pinturas coloridas, as quais representam as diferentes províncias da Espanha. Em um de seus terraços, moças dançam flamenco em um animado espetáculo repleto de espectadores, os quais ao final deixam moedas em retribuição à pequena apresentação.

Não sabíamos, mas havia muito mais para nos encantar no parque cheio de belos animaizinhos, lagos, e uma pequena cachoeira. Ao sair de lá, ainda tivemos uma boa surpresa ao nos deparar com a visão do lindo jardim da Plaza de América todo iluminado, com um lago à frente do museu de Artes y Costumbres, uma construção de uma fachada caprichosamente criada para impressionar.

Havia, ainda, um monumento repleto de belezas para conhecermos. Era o Real Alcázar, um extenso palácio composto por edifícios de diferentes épocas e impressionantes jardins cheios de estilo. A fortificação original foi construída sobre uma antiga edificação romana, tomada pelos povos germânicos e bárbaros. Posteriormente, foi conquistada pelos muçulmanos e, por fim, passou a ser uma construção cristã, mas com grande parte da sua estrutura conhecida como é hoje, criada pelo longo reinado dos mouros, antes de pertencer aos castelhanos. É impressionante a arquitetura de riqueza e pompa, predominantemente, no estilo árabe, com seus arcos em formato de ferradura, tetos e paredes com pintura moura.

Após essa visita cheia de detalhes, aproveitamos para passear pelo entorno e almoçamos uma deliciosa massa com uma jarra de sangria. Depois de bater perna pelas antigas ruas do centro, foi hora de assistirmos a uma apresentação de flamenco com bailarinos profissionais. Como berço dessa dança e música, lá seria o lugar ideal para essa programação. É um espetáculo encantador acompanhado por instrumentos de cordas e percussão numa mistura de violão, palmas, sapateado e dança. Hoje, como símbolo da cultura espanhola e patrimônio imaterial da humanidade, remontam à mistura de diversas culturas como a árabe, judaica e cigana.

Cidade cheia de lugares surpreendentes, Sevilha possui uma construção única denominada Metropol Parasol e conhecida como Cogumelos da Encarnação, à qual fomos a pé pelas ruas do centro antigo. Sob essa que é a maior estrutura de madeira do mundo, também conhecemos uma área de escavações arqueológicas romanas e árabes, da época em que Roma dominava parte das terras espanholas.

Sendo nosso último dia na cidade, não podíamos ir sem comer no Mercado de Triana. Matamos a nossa vontade, atravessamos a ponte de mesmo nome e fomos fazer o último passeio às margens do Guadalquivir. Nessa hora, tomei um dos maiores sustos da vida. Meu filho foi tirar uma foto nos degraus que dão acesso às águas, escorregou e caiu no rio. Não vi, mas ouvi a zoada da queda. Em milésimos de segundos meu cérebro processou a cena e me desesperei. Mas antes que eu morresse, ele saiu do rio, molhado da cintura para baixo e conseguiu salvar a máquina fotográfica. Era inverno e a água estava gelada. O jeito foi retornarmos ao hotel para ele se trocar. Passado aquele stress, saímos para fazermos um tour de barco pelo rio Guadalquivir, a fim de vermos a cidade de um outro ângulo.

Para a nossa despedida, fomos a um bar agradável e descontraído no centro antigo e bem perto do hotel. Ao chegarmos, tirei o meu chapéu favorito e o coloquei sobre a mesa. Um ato sem volta. Lá comi a salada russa mais gostosa até ali, um típico tira-gosto espanhol. Foi uma alegre despedida. Saímos do bar já na hora de seu fechamento e, na chegada ao hotel, percebi ter deixado o gorro. Não daria para retornar, porque o bar fecharia e, no dia seguinte, cedo partiríamos para Barcelona. Fim da nossa estada e, literalmente, tirei o chapéu para Sevilha e lá o deixei.

08/06/2024