Ao desembarcarmos na agitada Barcelona, a capital da Catalunha, não imaginávamos nos depararmos com a sua avenida mais famosa, a Rambla, apinhada de turistas, primordialmente, orientais. Nosso hotel ficava na Plaça Reial, outro ponto de vai e vem de turistas, feirinha, restaurantes e até de passagem de grupos devotos Hare Krishna, cantando e dançando. Apesar do barulho desses transeuntes e comerciantes, isso não era um problema já que havia isolamento acústico no quarto.
Como já era final de tarde quando nos instalamos, fomos passear pela Rambla e pelo famoso mercado La Boqueria, por serem próximos da Reial. Ao entrarmos lá, avistei framboesas em uma das barracas, apetecida peguei uma caixa e fui pagar. Infelizmente tive a lamentável surpresa de ser repreendida pelo vendedor que me insultou por ter pego a caixa. Para ele, eu não poderia pegar nada antes de pagar. Atitude a qual nunca havia vivenciado em países por onde já passei, principalmente em um mercado público. Mas o mal não foi muito além, pois em uma banca próxima, comprei minhas frutas naturalmente. Como já era hora de jantar, aproveitamos e comemos deliciosas iguarias em um dos quiosques e tomamos um bom vinho da casa.
No dia seguinte, foi ocasião de conhecer o bairro Gótico com suas ruelas e incríveis construções medievais e igrejas cheias de opulência, como a Catedral de Barcelona e a Basílica Santa Maria del Pi. Há também a imperdível Calle de Bispe, onde existe o conhecido passadiço "Ponte del Bispe”, construído em 1928, um dos últimos restantes. Era usado principalmente na época das pestes, para que os nobres não precisassem caminhar entre os pobres nas ruas. Foi nas imediações desse bairro que passamos pela hilária loja "Caganer", com bonequinhos com as calças arriadas em posição "fecal", representando milhares de personagens reais e fictícios do mundo inteiro, do papa aos astros do rock, incluindo os robozinhos de Star Wars. É claro que compramos um.
O próximo passeio seria a nossa primeira experiência com as obras de Gaudí: o Parque Guell. Um lugar de lazer lotado de visitantes de dentro e de fora da cidade. Um espaço que combina natureza e arte. Casas, arcos, colunas, torres, bancos, animais, paredes, tudo ao estilo Gaudí com suas curvas e detalhes em azulejo colorido. De lá pudemos gozar de uma grande visão da cidade e o que não faltou foram recortes fantásticos de cantos e recantos para fotografarmos. Ficamos empolgados com o aspecto único encontrado.
No entanto, havia muito mais desse genial arquiteto catalão, então almoçamos e fomos andar pelo bairro de Grácia, onde encontramos a primeira construção dele, a casa Vicens, repleta de seu estilo e para impressionar, como tudo o que ele projetava. Logo depois, vimos a casa Fuster. Após nos deliciarmos com os prédios desse lugar, onde cada edifício antigo parecia uma obra de arte, chegamos ao êxtase com a visão das casas Batlló e Milá. Começando a anoitecer então, vimos quando essas casas, uma próxima da outra, foram iluminadas com luzes projetadas para exaltar a beleza do lugar, acentuando a admiração do visitante. Foi um presente poder ver de perto o fruto de uma mente tão ímpar e criativa. Além dessas, havia a casa Amatller, a vizinha diferente, mas também extraordinária em seu estilo germânico, saltando também aos olhos do turista já sem palavras para definir toda aquela visão.
Como não faltam parques para conhecer, fomos nos perder no Parc del Labirint d'Horta, com seu labirinto de plantas, onde nos divertimos, procurando uma saída. De lá fomos para um lugar com uma bela paisagem marítima, o Calçadão de Madeira no Porto, a Rambla del Mar, uma passarela com linhas onduladas que leva ao Shopping Maremagnum. Para chegarmos lá, passamos pelo Monumento a Colombo, com uma estátua do navegador, de sete metros, situada no topo de uma coluna de ferro de 60 metros, uma imagem difícil de enquadrar pelo seu tamanho. Da marina vimos gigantescos navios e aves marinhas. Além disso, tivemos a sorte de vermos ancorado no porto o navio sueco à vela, Gotemburgo. Ele é uma réplica do também sueco East Indiaman Gotemburgo I, da Companhia das Índias, lançado em 1738 e afundado em 1745.
É preciso dizer, entretanto, que de todas as maravilhas vistas por nós na Espanha ou fora dela, nada se compara à basílica Sagrada Família, a rainha das igrejas, a obra-prima de Gaudí, que vem sendo construída há mais de 100 anos. Difícil de descrever ou comparar, considerando-se suas características, nunca reproduzidas em um templo católico. Suas inúmeras torres com detalhes e significados próprios protelaram a conclusão desse inimaginável monumento, que reúne o grande, o inusitado, o sagrado, e o surpreendente. Lá comprei um livro sobre as obras de Gaudí, porque depois de conhecer aquela criação, senti a necessidade de compreender a cabeça e a trajetória desse espírito cheio de inovação e talento, mesmo um século depois de sua maior realização. Algo que se tornou um mito, um motivo de controvérsia e discussões políticas. Contudo, a exuberância e fascínio que exerce são maiores que qualquer entrave surgido em seu caminho.
Após essa visita, tivemos a sensação de que não precisávamos ver mais nada naquela cidade. Mas, meu filho não queria ir sem conhecer o "Arco do Triunfo" de lá, então encerramos nossa passagem por Barcelona, depois de tirar boas fotos na via onde ele se projeta, o passeio de Lluís Companys. Uma avenida onde foram colocadas estátuas de bronze, representando as personalidades notáveis da história da Catalunha.
Cansados da longa viagem, decidimos antecipar nossa volta para Madri a fim de pegarmos o voo de volta, o que nos revelou a surpresa de ver um outro lado do centro, o qual não havíamos visto, com bares antiquíssimos em ruas cheias de beleza e um ar nostálgico. Foi uma empolgante despedida da Espanha e, para tanto, comemos um churrasco argentino no "Gaúcho", um restaurante atrativo para brasileiros e bem recomendado. Um bom fim de estrada.
22/06/2024



