sábado, 27 de maio de 2023

Quando gente grande vai à Disney


 

Dizem que na Disney quase todo mundo vira criança. E isso é verdade. Quando estive lá com a família e um casal de amigos, revivemos esta fase e foi como eles dizem mesmo: um mundo de fantasia. A alegria que sentimos ao ver aqueles brinquedos gigantes que costumamos ver por fotos, ou a imagem dos personagens, cujos desenhos animados assistíamos na TV, mexem com a nossa criança interior.

Entretanto, ao mesmo tempo que sentimos a alegria e a empolgação daqueles tempos infantis, carregamos os medos dos adultos. A ausência desses intrusos, quando somos pequenos ou jovens, faz falta nesses momentos. Queria ter a coragem do meu filho que andou nas montanhas-russas mais radicais, porém desprovida desse desprendimento, tive de procurar aquelas que, aparentemente, não assustam adultos medrosos.

Foi pensando nisso que uma amiga, meu marido e eu escolhemos andar em uma de madeira com ares de inocência, segundo nossos parâmetros. Ledo engano! O barulho que ela fazia quando corria sobre os trilhos, aparentando estar se desmontando, foi apavorante. As descidas que pareciam pequenas, eram altas o suficiente para o nosso coração quase parar. Quando terminou, foi como se tivéssemos saído da casa do terror.

Enquanto isso, o marido da amiga, que ainda guardava a criança interior, se divertia com o meu filho nos brinquedos em que não nos permitíamos. Houve um momento em que, cheios de empolgação, como fãs do personagem Harry Potter, fomos conhecer o Castelo de Hogwarts e os outros locais icônicos dos filmes da série. Quando chegamos lá, ficamos encantados com a fidelidade dos cenários e os hologramas dos personagens. Após caminharmos por parte do que seria a escola de magia, entramos em uma espécie de passeio semelhante a uma montanha-russa. Sentamos em uma cadeira, na qual os cintos foram colocados, e partimos como se estivéssemos montados em uma vassoura voadora.

Os movimentos eram bruscos e nos deparávamos com figuras assustadoras que emitiam sons, bafos e outros efeitos, como se fosse um filme 4D. Logo comecei a ficar enjoada e minha barriga dava voltas. Foi preciso um esforço sobre-humano para não botar para fora o que estava no estômago. Quando terminou, mal conseguia andar. Percebi que só tinha entrado nessa aventura, porque não sabia como seria. Depois dessa, ficamos ainda mais cuidadosos nas escolhas dos brinquedos. Vergonhosamente, tínhamos de andar naqueles em que iam as menores faixas etárias, como os carrinhos de corrida e o passeio de balão virtual pelas maravilhas do mundo, o qual achamos fantástico e inofensivo.

Seguimos, assim, em nossa diversão pelos parques até que encontrei uma montanha-russa que considerei adequada para adultos como nós, com apenas um loop para proporcionar uma pontinha de emoção. Foi uma escolha certeira. Nos divertimos a ponto de eu querer ir novamente. Mesmo assim, foi um pouco demais para o meu marido, que saiu de lá a passos de ganso. Repetição abortada, só nos restava encontrar os aventureiros dos brinquedos radicais, porque iríamos todos para o passeio no mundo dos Simpsons. No entanto, descobrimos na entrada, um aviso de alerta para pessoas com labirintite e hipertensão. Dessa vez, fui eu que desisti e esperei todos os outros. Não me arriscaria. Dos que foram, os menos corajosos saíram meio tontos e ressabiados. Ainda bem que tendo muito para ver, compensava aquilo em que não nos aventurávamos.

Para fechar com chave de ouro, no último dia, fomos ao show no famoso Castelo da Cinderela. Lá, as pessoas vestidas de acordo com os personagens mais famosos da Disney dão um show que encanta e emociona a todos. Nessa hora, não há como não voltar à infância, com a abertura dos filmes onde apareciam o castelo e os fogos. Era tão semelhante à imagem que conhecíamos da telinha, que parecíamos bobos dentro da nossa viagem ao mundo da fantasia. Saímos de lá extasiados e com a sensação de termos realizado um velho sonho de criança. Não é à toa que é um lugar desejado pelos pequenos e por adultos do mundo inteiro, independentemente de idade e crença, porque é isso que vemos quando estamos lá.

27/05/2023

sexta-feira, 19 de maio de 2023

Achados e perdidos de viagens

 

Foto: Anete Lusina

Falar dos achados e perdidos em viagens talvez pareça um exagero. Entretanto, quando isso me saltou aos olhos, vi que tinha seu lugar em nossas aventuras. A realidade é que dificilmente não ocorrem, apesar dos nossos cuidados e de serem imprevisíveis.

A coisa vem de longe. Descobri a importância de arrumar as camas antes do ckeck out, quando deixei uma blusa, não usada ainda, em um hotel no qual nos hospedamos no interior de Minas Gerais. Concluí que ela ficou embaixo das cobertas no momento em que arrumava a mala par a seguir viagem e a coloquei sobre a cama. Algo parecido ocorreu quando esqueci uma camisa d o meu filho em uma pousada de praia. É preciso dizer que meu marido deixou seu iPhone embaixo de um lençol, quando estávamos saindo para o Aeroporto, voltando de um outro país. Porém, quando decidi voltar da porta, percebi que ele havia jogado o lençol em cima da cama já forrada. Levantei, então, a trouxa de pano numa última checagem e vi o telefone embaixo dela. Foi o que lhe fez entender que é assim que se deixam coisas em cima da cama dos hotéis.

Chinelo não é algo difícil de ficar pelo caminho. Meu filho deixou os seus e também seu apoio de pescoço embaixo da cama, quando de passagem por Florianópolis. Mas isso não foi pior do que ele deixar cair na areia da praia o celular e este ser encontrado por alguém que se esforçou para devolvê-lo, quando estávamos em um passeio pela Paraíba. Esta foi uma das histórias mais surpreendentes. E como ele atrai essas situações! Na adolescência, resolveu mexer na pulseira de um relógio, o qual era seu favorito, ao encostar-se na mureta de uma ponte sobre o Tâmisa, em Londres. E lá se foi seu marcador de horas. No fundo desse rio, ele repousa até hoje. Por ser distraído, bastou uma visita a um museu para, em um único lugar, perder dois itens: um cachecol que, por sorte, foi recuperado na recepção, e uma touca de frio, que não teve o mesmo destino, encontrando outra cabeça para aquecer. Na mesma cidade, em uma Igreja, deixou o gorro cair, alguém o encontrou e o deixou sobre um corrimão. Casualmente ao reconhecê-lo, o resgatei, e depois incrédula fui perguntar ao dono se não havia dado falta de nada.

Para não ter o direito de reclamar, na mesma viagem, meu marido perdeu a mochila em um magazine. Quando foi procurá-la, ela já havia sido levada para a seção de achados e perdidos. E no final da viagem, deixei meu chapéu de tecido, o qual era meu xodó, sobre a mesa de um restaurante.

No rol das desatenções, meu filho perdeu duas carteiras. Uma, supostamente, ficou em um táxi em Nova York e a outra foi deixada em um trem em Otawa, por ocasião de outras férias. A última foi recuperada na estação após ser encontrada por uma alma honesta. Para quem anda com artigos de fotografia como ele, nada pior que esquecer um tripé em um parque, após tirar algumas fotos ou deixar a máquina fotográfica em cima de um freezer, em um posto de gasolina. Isto ocorreu em uma pequena cidade no interior do Chile. Desta vez, tivemos que pagar a quem a encontrou para que nos restituísse o que não lhe pertencia. Infelizmente, nem sempre as pessoas pensam que devem devolver algo de graça.

Para minha grande tristeza, mas para a alegria de quem o encontrou, perdi em uma praia do Ceará, um óculos de sol Ray Ban que caiu acidentalmente da bolsa. Ao passar uns dias na casa de uma amiga na França, perdi um batom, que comprara para dar de presente e uma escova de cabelos. Eu sabia que estavam no quarto onde ficamos, mas não conseguia encontrá-los. Tempos depois, a dona da casa achou os perdidos.

É possível que outros infortúnios do tipo tenham nos ocorrido. Porém, a lista se alongaria além da paciência do leitor, sendo um inventário de achados e perdidos que que se avolumaria em narrativas. Na melhor das hipóteses este aqui pode ser um alerta para distraídos como nós. Quem sabe a nossa experiência possa servir de livramento para outros viajantes. Boa sorte!

19/05/2023

quinta-feira, 11 de maio de 2023

O destino é andar


Foto: Elizabeth Villalta

Quando estávamos preparando o roteiro para os nossos dias em Washington, o entusiasmo cresceu ao descobrimos o complexo de interessantes museus situados no National Mall, um local no Centro, onde fica o famoso espelho d’água e o gigante obelisco em homenagem à cidade que, depois da Casa Branca, é o símbolo daquele lugar. Não estávamos errados quanto a nossa empolgação, entretanto só quando chegamos lá foi que nos conscientizamos do tamanho daquele lugar e da quantidade de museus. Precisaríamos de vários dias para percorrê-los e, ao final, ficaríamos cansados e já não seria possível assimilar os conhecimentos adquiridos. Além disso, havia os monumentos no entorno, como a famosa estátua no Lincoln Memorial, a própria Casa Branca e o Capitólio. Impossível ver tudo. E não vimos.

No primeiro dia, priorizamos os que nos despertavam mais interesse: o Museu Judaico, o Smithsonian aeroespacial e a visita a alguns monumentos. Parece pouco. Porém, passamos horas em cada um e andamos quilômetros a pé para chegar aos memoriais. Sem uma alternativa, concluímos que era como andar na Esplanada em Brasília: à distância tudo parece próximo, mas quando se começa a andar para chegar aos prédios dos três poderes, estes parecem inalcançáveis. Foi na capital americana que me descobri portadora de uma neuropatia periférica. Meus pés simplesmente

sucumbiram ao esforço de andar naquele complexo e, no terceiro dia, fui obrigada a parar e ficar deitada sem usá-los a fim de que se recuperassem. Desistimos de conhecer o Capitólio porque, em obras, não compensaria a caminhada até lá. Cada lugar agora do National Mall era selecionado por nós de acordo com o tanto que teríamos que andar para chegar lá. Hoje, pensando bem, uma saída teria sido alugar bicicletas, pois me sentia patética andando e parando a toda hora como se tivesse pelo menos vinte anos a mais.

Após essa experiência, decidimos conhecer outras partes da cidade, algo suportável para meus frágeis pés. Mas a passagem por Washington, além de nos marcar por essa inusitada dificuldade, se tornou inesquecível pelo perrengue da volta. Não sabíamos, mas nosso retorno para o Brasil seria com mais emoção que o esperado. Se eu já estava cabreira de ter que voltar por Baltimore, a 55km de onde estávamos, para depois pegar um voo até Miami, e de lá mais três até chegar em casa, o que pensar após ficar dentro de um avião por 5 horas em solo? Essa é quase uma outra história: chegar ao aeroporto não foi um problema. Meu primo que morava em Washington e nos hospedou, nos levou até lá.

A treta verdadeira foi no terminal aéreo de Miami, encarar dois atrasos do mesmo voo. Primeiro a demora para o embarque com a justificativa do aguardo de passageiros vindos de uma conexão. Em seguida, quando entramos no avião, após duas horas parado na pista e pressões dos passageiros, veio o aviso de que estavam fazendo uma manutenção na aeronave. Como já deveríamos estar no ar e recebendo o jantar, estávamos todos famintos. Sendo proibido servir em terra, solicitamos nossa saída para comprar uma refeição. Depois de muita negociação, permitiram. Porém, a demora fez com que chegasse a hora do fechamento das lanchonetes e isso causou uma corrida por parte dos passageiros até a sala de embarque. Por sorte, ainda consegui comprar lanches para meu marido, meu filho e para mim. Após 5 insanas horas, partimos para São Paulo. Mas o espantoso de tudo isso foi que alguns passageiros da primeira classe, confortavelmente instalados, se queixaram de nosso movimento de reclamar da situação, e de sair e entrar no avião para comermos, o que nos obrigava a passar por eles. Isso me fez confirmar a ideia de que a ilusão de superioridade da nossa elite é algo a ser estudado.

E se isso tudo já parecia esdrúxulo, quando pousamos em Guarulhos, tínhamos um voo que havíamos comprado separado e chegamos no encerramento do embarque. Após pegarmos nossa bagagem, corremos até o guichê da companhia aérea e de lá enviaram uma mensagem por rádio, avisando para nos esperarem. A recepcionista nos disse para correr, e quando íamos entrar na sanfona, avisaram que a nossa bagagem havia excedido o peso. Nessa hora, a tensão foi às alturas. A saída foi solicitarem autorização para embarcarmos apesar disso, e a orientação de corrermos. E foi assim que entramos no avião arfando e a porta sendo fechada atrás de nós. Enquanto os passageiros nos olhavam curiosos, eu só queria ir para o meu assento respirar e me preparar para uma segunda longa jornada de mais 2 voos: São Paulo – Salvador e Salvador – Recife.

Hoje olho para trás e não consigo pensar como achamos que aquilo daria certo. A grande lição foi: nunca compre passagens com localizadores diferentes, pois se um voo atrasar e você perder o(s) seguinte(s), a responsabilidade é toda sua. Quanto à outra empresa que nos deixou 5 horas em solo dentro do avião, descobrimos que, misteriosamente, esse tipo de procedimento era uma prática constante no aeroporto de Miami, lugar onde mandava e era seu hub. Lá os brasileiros, sem voz, volta e meia eram submetidos a isso. Com essa, o outro aprendizado foi: never more viajar por essa companhia. Desconfio que, fosse a pé ou por ar, nosso destino nessa viagem certamente foi andar.

11/05/2023