quarta-feira, 18 de janeiro de 2023

Uma longa estrada para um começo

Havia várias possibilidades para um começo de histórias, então era preciso fazer uma escolha. E essa que vou contar agora pareceu uma boa referência, porque seria o início de um casamento e de uma série de aventuras agora com um companheiro de uma vida.

Travessia de Balsa no Rio São francisco
                                                                           

A missão era ir de Recife a Salvador  de carro, percorrendo uma distância de 847 quilômetros. Meu marido estava trabalhando temporariamente naquela cidade e, ao retornar para casa por uma semana, foi solicitado que levasse um dos veículos da empresa - na época um Gol 1000 - até Salvador. Planejamos sair no sábado cedo para chegarmos ao nosso destino no início da noite.

A primeira falha na execução do plano foi não termos saído no horário programado. Oito horas da manhã se revelou tardio para uma jornada tão longa à vista. Partimos, tranquilamente, com a premissa de que seria também um lazer. Uma das etapas seria almoçarmos em Maceió e contemplarmos o mar da Praia de Pajuçara. E assim fizemos. Um passo nada razoável para o objetivo traçado para a hora de chegada em Salvador. É preciso dizer que, no meio desse trajeto, protagonizamos uma cena digna do seriado Duro na queda, ao passarmos por uma lombada mais alta que a maioria, sem diminuir a velocidade. O voo foi de tirar o fôlego! O problema foi a aterrissagem! Apesar da sensação de que todas as peças do carro não estavam mais no lugar, isso não o impediu de seguir adiante. Apesar de o nosso coração quase sair pela boca, conseguimos mantê-lo dentro da caixa torácica. Embora eu não estivesse em uma montanha-russa, o grito de pavor faria jus a uma boa e radical descida.

Mas ainda estávamos no começo. No estágio seguinte, a ideia era chegar em Penedo e lá atravessar o Rio São Francisco em uma balsa. Era meio da tarde quando nos preparamos para colocar o carro na plataforma. Por precaução, resolvi não permanecer no veículo naquele momento. Meu marido protestou, alegando que eu estava lhe deixando correr risco sozinho no meu primeiro teste de cumplicidade. É claro que ignorei  seus argumentos e, antes que voltasse a se queixar, eu já estava em meu canto no barco, observando o rio. Faltando quase 500 quilômetros ainda de estrada, estávamos mais que atrasados: precisamente estávamos sem noção do que nos aguardava.

Enquanto atravessávamos o estado de Sergipe, meu marido repetia satisfeito que, ao cruzarmos a divisa com a Bahia, iríamos seguir pela Linha Verde, uma estrada recém construída e que, além de diminuir a distância até a capital, agilizava o trajeto por suas excelentes condições. Baseados nessas suposições, seria um ótimo final de viagem e com apenas um pouco de atraso. Foi com esse espírito que entramos no último posto de gasolina antes da Linha Verde, parada obrigatória, porque não havia pontos de abastecimento nessa via de centenas de quilômetros.

No entanto,  incalculável foi a nossa surpresa ao sabermos por um funcionário do posto que, à noite, não seria seguro andar por aquela estrada e que ninguém em sã consciência faria isso, porque poderia sofrer um assalto. A solução era continuarmos pela esburacada e movimentada BR-101. Essa foi uma das piores notícias que poderíamos ter recebido naquele momento. Foi assim que passamos horas nos desviando de buracos e nos deparando com caminhões de carga numa sensação de estar dentro de um filme de terror. Os sustos de sucediam a cada desvio de uma colisão. O medo crescente causava uma tensão tal que minhas pernas tremiam incessantemente.

A viagem se tornou tão longa que, a certa altura, achávamos que havíamos passado da entrada da cidade. A noite avançava e aquela aventura não estava sendo mais divertida. Exaustos e com um mapa na mão, não sabíamos mais a nossa localização, porque o cansaço turvava a nossa mente. A certa altura, decidimos parar na portaria de uma fábrica e perguntar ao segurança a que distância estávamos da entrada em que queríamos chegar. Ao contrário das nossas desgastadas expectativas, não fosse noite, seria quase visível nosso objetivo final.

Quando adentramos no quarto do hotel eram precisamente 11 horas da noite. Após um breve lanche, apagamos e, no dia seguinte, acordamos doloridos em razão dos nervosos movimentos involuntários dos nossos músculos e com uma série de lições em nossa bagagem.

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