quinta-feira, 26 de janeiro de 2023

A primeira visita com a Princesa

Foto: Thiago Alex (www.onibusbrasil.com)

Após os primeiros meses de casada, seria tempo de conhecer a casa dos sogros que moravam no estado do Ceará. Naquela época, final dos anos noventa, já existia a possibilidade de ir de avião, mas como seria inviável para o bolso de um casal que galgava os primeiros degraus de uma nova vida, a opção se resumia à viagem de ônibus. Mas havia alguns poréns: o primeiro seria que só podíamos embarcar no pinga-pinga, parando em diversas cidades, porque era o que havia. O segundo seria a problemática "Princesa do Agreste", merecidamente apelidada de "Tristeza do Agreste", empresa que fazia a linha, um primor de ineficiência que reinava sozinha na região.

A primeira vez que fui até a cidade onde meu marido nasceu, distante 650 quilômetros a partir do Recife, foi pura diversão, porque tudo era novidade. Nem senti as dez horas para chegar ao nosso destino, apesar do horário da madrugada. Em cada parada acordava e ficava observando o local e as pessoas que subiam para seguir viagem conosco. Quando o dia raiava, era hora de aportar na Rodoviária onde desceríamos. Depois disso, deveríamos esperar até às 5 horas da manhã para telefonar e acordar o nosso anfitrião, o cunhado, que iria nos buscar. É claro que ele chegava mal- humorado após se levantar bem mais cedo que o habitual, em um final de semana.

No dia seguinte, seria o momento de ir ao sítio onde moravam os sogros. Pegamos emprestado o Fusca da cunhada e subimos a Serra do Araripe, um lugar em que, posteriormente, eu viveria muitas aventuras. Depois, descemos no outro lado, num trajeto de 40 quilômetros até chegar a casa. Antes, passamos por uma estrada de terra com uma paisagem completamente diferente do restante do caminho. Estávamos no sertão e a vegetação denunciava o lugar. Descobri, posteriormente, que nem sempre era assim. Havia também tempos de muito verde e açudes transbordando, porém tinha sua estação e era minoria dentro de um ou mais anos de seca.

Após um animado final de semana com a família reunida na fazenda, retornamos para a cidade. Era um feriadão e teríamos tempo para passear um pouco por lá, antes de pegarmos a longa estrada de volta. Fiquei encantada com aquela cidadezinha tão acolhedora e agradável, contornada por uma inspiradora Serra, uma área de proteção ambiental, uma verdadeira princesa, ao contrário da outra. Como bônus, ainda conheci dois belos clubes de campo, uma novidade para mim. Fiquei sabendo que eles tiveram seus dias de glamour como muitos outros, que tinham sido a febre nas décadas anteriores, mas ainda seriam lugares para as famílias passearem.

No dia de retornar, a Princesa não passaria incólume. Depois de muitas paradas, em um acidente, o motorista atropelou uma vaca. Com isso, a frente do ônibus ficou tão danificada que não pudemos continuar. Sem ter outro veículo para mandar buscar os passageiros, como era de se esperar, tivemos que pegar carona em outra linha da empresa. Eram aproximadamente 3 horas da madrugada quando retomamos a viagem, em pé, escorados nos bancos e mortos de sono.

Durante dois anos, nossas viagens para essas visitas eram sempre pela malfalada "Tristeza do Agreste". Depois que deixou de ser novidade, passei a renegar aquelas paradas infames, o conforto precário e a falta do ar condicionado. Outros que se aventuravam, usando essa mesma linha, passaram pelos perrengues mais variados: quebras dos ônibus, atrasos, saída cancelada para o dia, visto que só tinha uma diariamente e quando esta não acontecia, a próxima seria só na noite seguinte. Como se não fosse suficiente, havia os assaltos ou passageiros esdrúxulos que pioravam o que já não era uma experiência das melhores.

Depois de muitos anos sem ter quem desse fim àquele serviço mal prestado, a empresa foi sucumbindo por si só, quando alternativas mais baratas e melhores foram surgindo. E hoje seus ex-passageiros, com muito prazer, se despedem: "Adeus, Princesa!"

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