quinta-feira, 30 de março de 2023

O dia mais quente

Noite em Colonia del Sacramento

Para quem vivia em uma região onde a temperatura variava entre 25 e 29 graus, pode parecer estranho não suportar muito calor. Falo no passado, porque rapidamente o clima está mudando e a faixa se expandindo para ambos os lados. Entretanto, quem vive nesse clima, em geral, sofre com o frio ou o calor. É como se vivêssemos no meio, e tender para os extremos não é uma opção.

Foi em uma viagem ao Uruguai que descobrimos o quanto alguns poucos graus a mais nos afetavam. Era verão e o clima em Montevideu estava agradável. Passeamos por lá, durante alguns dias, sem problemas até que resolvemos ir para a Argentina de balsa. Para tanto, teríamos que pegar o famoso Buquebus, em Colonia del Sacramento. Ficamos empolgados, porque conheceríamos essa pequena e simpática cidade histórica e faríamos uma aprazível travessia pelo Rio da Prata até Buenos Aires. Isso porque o transporte seria confortável, espaçoso e ainda comportava uma pequena Free Shop.

Conforme planejado, pegamos um ônibus expresso até Colônia. Apesar de ter sido há quase vinte anos, já oferecia wi-fi gratuito para utilizarmos durante o trajeto. Como as estradas eram bem cuidadas e o veículo confortável, ficamos só desfrutando da paisagem, chegando dispostos para aproveitar o dia na cidade e partir na manhã seguinte. O plano era dar uma volta para ver alguns monumentos, almoçar, descansar e conhecer o restante da cidade para terminarmos o dia em um restaurante às margens do Rio da Prata.

Demos uma volta e fomos almoçar. Achamos estranho que estava esquentando rapidamente e não havia ar-condicionado no restaurante, um lugar super-recomendado por colegas que já haviam passado por lá. Mesmo assim, conseguimos comer. Entretanto, quando saímos e passamos a caminhar na rua, meu filho e eu começamos a nos sentir mal. Como se diz popularmente, estávamos tendo um passamento, uma espécie de mal-estar. Além disso, o ambiente quente dava uma sensação de falta de ar ao respirarmos. Procuramos um lugar aberto e, ao mesmo tempo, fresco, coisa difícil naquele contexto. Encontramos uma árvore frondosa em frente a uma sorveteria e com algumas mesas embaixo. Era quase perfeito. Ficamos ali a nos abanar. Tomamos sorvete e decidimos ficar nesse refúgio até que o entardecer avançasse mais e o calor diminuísse. Confesso que foi meio entediante, mas não havia outra saída aparente. Não queríamos voltar ao hotel, pois não ficava perto o suficiente para irmos a pé.

Após um tempo nos refazendo e o sol não estar mais a pino, os ânimos começaram a voltar e continuamos nosso passeio pela cidade. De vez em quando uma abanada, uns goles de água, mas dava para seguir. Quando a noite chegou e fomos para o restaurante na beira do rio, o clima abrandou. E para fechar aquela passagem por uma cidade convidativa para um vinho, tomamos uma taça, só para não ficar de graça. A maioria das pessoas optavam pela cerveja, porque a estação favorecia, e meu marido também embarcou nessa opção. Já eu, ponderei que estava satisfeita com aquela taça. Não queria provocar o calor com os efeitos da bebida. Aproveitamos para tirar uma clássica foto com os copos sobre a antiga mureta vazada do bar, e a nossa imagem delineada no escuro da noite com o dourado do rio por trás.

Na manhã seguinte, quando faríamos a travessia de balsa, pegamos nossa bagagem e chamamos um táxi para nos levar ao porto. Quando estávamos no caminho, o motorista indagou se havíamos gostado do lugar. Ao comentamos sobre o calor, ele nos esclareceu que o dia anterior havia sido o mais quente do ano e que isso ocorria uma vez a cada verão. Nos entreolhamos com aquela revelação e concluímos que havíamos acertado na mosca, só que de uma maneira ruim. Apesar disso, valeu conhecer aquela charmosa cidade e a travessia no Buquebus. Recomendo.

 30/03/2023

quinta-feira, 23 de março de 2023

A visão da Cordilheira

Cordilheira - vista da janela do avião

“Mãe, olha isso!” Era o meu filho me chamando para ver pela pequena janela do avião a majestosa Cordilheira dos Andes. Tomei um fôlego de criança espantada. Aquela visão me fisgou de tal forma que não conseguia parar de olhar. Depois de já ter visto tantas fotos daquela paisagem, não imaginava ficar como quem a descobria naquele momento. Não importava. Ver com os próprios olhos era diferente. Só depois de cansar o pescoço de tanto me esticar para olhar aquelas montanhas é que voltei para o meu lugar.

Chegamos em Santiago do Chile em um mês de janeiro, pois imaginávamos que encontraríamos um clima mais ameno. Mesmo assim, ansiávamos por ver neve sobre as montanhas que cercam a cidade e desenham um horizonte sem igual. Porém, não contávamos com a realidade de que a grande poluição ali presente ocultaria parcialmente o trecho do espinhaço da Cordilheira próximo à cidade.

Diante disso, ficamos mais ansiosos para fazer o passeio ao Vale Nevado. Só assim descortinaríamos aquele véu de fumaça e poderíamos encontrar as famosas paisagens da região. E foi assim que vimos pela primeira vez a neve nos topos das elevações. Fomos em um passeio com um guia muito divertido, que já havia morado no Brasil, e que passou todo o caminho encarnando o espírito do brasileiro piadista.

Precisamos subir 3500m para chegar ao nosso destino. Nesse ponto não poderíamos demorar, porque rapidamente o clima mudaria e tudo ficaria encoberto. Lá descobrimos na prática o que é respirar um ar rarefeito, que faz cansar quando você percorre uma subida de 1m a pé, e o perigo de não respeitar a montanha. Sendo assim, após darmos uma volta e almoçarmos, logo seria hora de voltarmos porque as nuvens já estavam na altura dos nossos olhos.

A hora da descida seria algo empolgante não fosse o susto que todos tivemos, inclusive o guia, ao constatarmos que três passageiros não estavam no micro-ônibus. Para tudo! Estando na hora limite por causa da mudança climática, o guia saiu tenso à procura dos ausentes. Alguns minutos depois, chegaram, e ao sentarem em seus assentos, foram chamados à atenção pelo risco criado. No momento em que saímos, já não víamos o hotel onde almoçamos. Descer sem ver a pista seria bastante perigoso, afinal eram cerca de 60 curvas fechadas, em “U”, e curiosamente numeradas até chegar embaixo. Este detalhe fez com que antes de subirmos, todos pegássemos um saco em um posto, caso alguém enjoasse e o estômago não segurasse o que estava dentro, coisa que quase aconteceu com meu marido. Contratempos à parte, foi um passeio fantástico. Mesmo com neve apenas nos picos, a paisagem meio lunática de um solo vulcânico era surpreendente pela novidade; até mesmo aquela estrada sinuosa fazia parte da magia.

Nesse dia, soubemos pelo guia que, na tarde anterior, havia tido um pequeno tremor de terra, o qual nós nem percebemos. Melhor assim. No entanto, esse fenômeno comum naquele país nos fez cancelar alguns passeios. Não sabíamos, mas um grande terremoto, ocorrido dois anos antes, havia provocado o fechamento de vários locais de visitação ainda não recuperados.

Eis que a chuva não limpa só o chão, mas também o ar, e em um dia após uma noite chuvosa, a nuvem escura se dissipou. Era final de tarde de um domingo ensolarado, quando fomos passear no boêmio bairro da Bela Vista, e nos demos conta de que a visão da Cordilheira, pela qual tanto ansiávamos, estava ali diante dos nossos olhos. Havia beleza no horizonte com os topos das montanhas pincelados com flocos de gelo. Mais uma vez não conseguia parar de olhar e pensei: é como na foto da paisagem que havia visto na agência onde compramos o passeio do Vale Nevado. Confere.

23/03/2023

sábado, 18 de março de 2023

A praia dos sonhos

Pôr do sol no mar visto da duna

Um dia, vi na TV a praia de Jericoacoara sendo eleita em um programa produzido por uma emissora estrangeira, como uma das cinco mais belas do planeta. Naquela hora, pensei : "Eu estive lá e deve ser verdade". Não dá para negar, é diferente da maioria, e a magia do pôr do sol no mar, fruto de sua geografia, é a cereja do bolo de um cenário paradisíaco.

A aventura começou quando meu marido e eu deixamos Olinda, em Pernambuco, e chegamos em Canoa Quebrada, no Ceará, em um trajeto de carro. Nessa praia, ficamos em uma pousada onde fomos recebidos pelo dono, um imigrante suíço, com um divertido sotaque que nunca esquecemos. Lá descansamos e conhecemos as paisagens icônicas desse lugar e o tradicional agito das noites locais. Depois de dois dias, nos despedimos do nosso anfitrião que nos contou curiosas histórias. Dentre elas, narrou a sua tentativa de voltar para seu país de origem após dez anos no Brasil e receber a recomendação de voltar para o lugar de onde havia saído. A alegação foi de que após tantos anos fora, já não seria útil para a sua nação. E assim ele o fez.

Com mais essa vivência na bagagem seguimos para Jijoca, cidade onde deveríamos deixar nosso carro e continuar a viagem em um veículo com tração nas quatro rodas para transpor as dunas e chegar ao nosso destino. Pagamos a um condutor que levava turistas e conhecia o caminho por entre aquele mar de areia e suas armadilhas. Houve um momento em quem paramos para ajudar um outro condutor que havia atolado sua caminhonete em um trecho. Aquele trajeto não era para iniciantes. Era difícil nos mantermos nos assentos. Meu corpo dava saltos tão grandes que a cabeça batia no teto da cabine em um sobe e desce de uma estrada extremamente ondulante.

No entanto, aquele meio justificava o fim. Quando surgiu diante de nós uma praia de águas límpidas, com pequenas lagoas e coqueiros entre as dunas e uma cidadezinha que, na época, era praticamente um vilarejo, ficamos encantados. Fomos bem recebidos na pousada e aproveitamos o resto do dia para começar a conhecer a pequena vila e seu litoral.

No dia seguinte, fomos fazer um passeio na Lagoa Azul, um lugar onde a sua cor fazia jus ao nome. Havia várias redes armadas dentro de suas águas doces para proporcionar ao turista a profunda sensação do não fazer nada ao se balançar ao sabor do vento e ao relaxar sob um afago molhado . Ali o tempo não existia ou não fazia sentido. Voltamos quando foi preciso pegar o buggy que nos levaria de volta. Esse tinha horário definido para sair. Algo providencial, porque era quase uma lei no final da tarde, ir para a duna onde todos se sentavam para assistir ao pôr do sol no mar. No primeiro dia em que fizemos isso, foi um sonho. Tiramos muitas fotos e nos deslumbramos com aquele presente da natureza. Mas como nem todo dia é dia santo, na vez seguinte, o vento sobre o monte de areia fez aqueles pequenos grãos nos surrarem a ponto de descermos correndo com as pernas ardendo pela força com que éramos atingidos. O instinto nos dizia para corrermos antes que não conseguíssemos mais manter os olhos abertos. Já a boca não teve jeito, pois mastigar um pouco do que o ar carregava seria inevitável. Foi quando aprendemos que dia de vento não era adequado para aquela distração. Os que insistiam em fazê-lo pagavam caro.

Continuando nossa programação, em um outro dia fomos conhecer a Pedra Furada Lá poderíamos assistir ao pôr do sol pelo buraco de uma grande rocha em uma parte da praia. Famosa pelo cenário criado por essa combinação, era disputada pelos turistas que procuravam o melhor ângulo para fotografar a imagem perfeita que ali se formava. Apesar do difícil acesso, era um lugar cheio de estrangeiros. Para chegar lá, fomos de buggy após um passeio pelas dunas. Voltaríamos a pé por uma colina acima da pedra, já que pela praia não seria possível. Depois de disputar uma vaga por uma bela foto com japoneses munidos de lentes superpotentes, começamos a retornar junto com um casal que fez o passeio conosco. A surpresa foi que a trilha para a descida passava na borda de um tipo de ribanceira e, quando caminhávamos, nossos pés afundavam muito, porque era uma duna com árvores embaixo. Numa dessas, meu pé acertou um galho seco de uma planta e feri um dedo. Senti um certo receio até começarmos a descer e ver a cidade se aproximando, o que nos deixou aliviados.

Foi uma caminhada mais longa do que esperávamos e chegamos cansados, mas animados. Combinamos tomar um bom banho para relaxar e nos arrumar para jantarmos juntos. No dia seguinte, voltaríamos numa romântica jardineira (um tipo de ônibus adaptado à parte da frente de uma caminhonete) para Jijoca a fim de pegar nosso carro e voltar para casa. Por este motivo, faríamos uma despedida daquele paraíso e do simpático casal que conhecemos na pousada e nos acompanhou em nossas aventuras.

Muitos anos se passaram desde que fizemos essa viagem. Com a facilidade do acesso, hoje já existe uma gama de hotéis e restaurantes para todos os gostos na região, em uma enorme exploração do turismo. Não sei até que ponto a preservação daquele bioma está sendo considerada, ou se irá sobreviver à voracidade econômica do homem. Continua sendo uma bela praia, mas imagino que a cidade não guarde mais a simplicidade e o aconchego da pequena vila de outrora e que a paisagem não deva ser a mesma.


18/03/2023


quinta-feira, 2 de março de 2023

O paraíso dos raios



Céu tempestuoso de Clearwater

Quando alguns destinos se tornaram muito dispendiosos para o turismo, os que gostam de viajar passaram a procurar novas possibilidades. Foi nesse contexto que meu marido e eu pensamos em conhecer Key West, uma adorável ilha ligada à Florida por incontáveis pontes que formam uma das estradas mais bonitas do mundo. Uma paisagem para nós coroada com um pôr de sol no mar que nos convidou a parar para apreciá-lo. Nessa hora, estávamos quase lá onde seria o ponto final de um conjunto de pequenos pedaços de terra. Ficamos encantados com o mar de um azul clarinho, com águas transparentes e mornas como são as praias banhadas pelo Golfo do México. Um lugar perfeito para um mergulho, do qual era difícil de sair devido à sensação agradável promovida por essa combinação natural.

Após essa experiência, pensamos na possibilidade de conhecer outra ilha no mesmo estado e, no ano seguinte, fomos para Clearwater. Lá fomos para outras praias de águas límpidas e preparadas para receber os visitantes, com banheiros limpos, salva-vidas e restaurantes. O que não sabíamos é que estávamos no lugar onde ocorrem mais tempestades elétricas naquele país. Logo na chegada, quando fomos passear pela cidade e andávamos pela rua principal, fomos surpreendidos por uma grossa chuva repentina. Enquanto nos abrigávamos em um restaurante, assistíamos ao show de raios que riscavam o céu. Não imaginávamos que esse fenômeno da natureza seria presença comum naqueles próximos dias de viagem.

Bastou o primeiro dia de praia para sermos convidados pelos salva-vidas a nos retirarmos assim que os primeiros pingos de uma neblina começaram a cair. Descobrimos que chuva e praia são uma condição de alerta máximo para fugir das descargas elétricas naquela região. No segundo dia, já vimos no noticiário local que três pessoas tinham sido atingidas por um raio em frente a um hotel por onde havíamos passado um pouco antes. Depois disso, ficamos de olhos bem abertos.

Mesmo com todos os cuidados, seguimos para Fort Myers, uma outra praia, que supúnhamos mais segura. Quando resolvemos tomar um banho na piscina do hotel para aliviar o calor de um típico verão, eis que um raio caiu bem próximo de onde estávamos. De repente, não havia mais ninguém dentro d’água e entendemos que era para sairmos mais que imediatamente. Ao perceber a urgência da situação, me retirei tão abruptamente., sem usar a escada, que sofri um tremendo machucado no joelho, o qual deixou uma cicatriz como registro do susto. Meu marido, que estava fora e tinha visto a descarga, correu assustado para nos avisar, encontrando-nos já fora, também, e muito assustados . O banho de piscina, por ora, estava suspenso.

Conhecemos diversos lugares tanto nas ilhas como nessa última cidade em que estivermos, todos de uma beleza que viverá em nossa memória. Ainda cogitamos um dia retornar à bela Key West, porém, quanto a Clearwater, preferimos nos manter a salvo. Valeu pelas admiráveis paisagens, pelos passeios de barco, pelos crepúsculos pintados de dourado que apreciamos, mas lidar com as tempestades repentinas e seus riscos não está em nossos planos. Não é à toa que é uma parte do mundo assombrado por eventuais furacões, afinal o impressionante aspecto apocalíptico daquele céu fatalmente tem seu preço.

02/03/2023