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| Cordilheira - vista da janela do avião |
“Mãe, olha isso!” Era o meu filho me chamando para ver pela pequena janela do avião a majestosa Cordilheira dos Andes. Tomei um fôlego de criança espantada. Aquela visão me fisgou de tal forma que não conseguia parar de olhar. Depois de já ter visto tantas fotos daquela paisagem, não imaginava ficar como quem a descobria naquele momento. Não importava. Ver com os próprios olhos era diferente. Só depois de cansar o pescoço de tanto me esticar para olhar aquelas montanhas é que voltei para o meu lugar.
Chegamos
em Santiago do Chile em um mês de janeiro, pois imaginávamos que
encontraríamos um clima
mais ameno. Mesmo assim, ansiávamos por ver neve sobre as montanhas
que cercam a cidade e desenham um horizonte sem igual. Porém, não
contávamos com a realidade de que a grande poluição ali presente
ocultaria parcialmente o trecho do espinhaço da Cordilheira próximo
à cidade.
Diante disso, ficamos mais ansiosos para fazer o passeio ao Vale Nevado. Só assim descortinaríamos aquele véu de fumaça e poderíamos encontrar as famosas paisagens da região. E foi assim que vimos pela primeira vez a neve nos topos das elevações. Fomos em um passeio com um guia muito divertido, que já havia morado no Brasil, e que passou todo o caminho encarnando o espírito do brasileiro piadista.
Precisamos subir 3500m para chegar ao nosso destino. Nesse ponto não poderíamos demorar, porque rapidamente o clima mudaria e tudo ficaria encoberto. Lá descobrimos na prática o que é respirar um ar rarefeito, que faz cansar quando você percorre uma subida de 1m a pé, e o perigo de não respeitar a montanha. Sendo assim, após darmos uma volta e almoçarmos, logo seria hora de voltarmos porque as nuvens já estavam na altura dos nossos olhos.
A hora da descida seria algo empolgante não fosse o susto que todos tivemos, inclusive o guia, ao constatarmos que três passageiros não estavam no micro-ônibus. Para tudo! Estando na hora limite por causa da mudança climática, o guia saiu tenso à procura dos ausentes. Alguns minutos depois, chegaram, e ao sentarem em seus assentos, foram chamados à atenção pelo risco criado. No momento em que saímos, já não víamos o hotel onde almoçamos. Descer sem ver a pista seria bastante perigoso, afinal eram cerca de 60 curvas fechadas, em “U”, e curiosamente numeradas até chegar embaixo. Este detalhe fez com que antes de subirmos, todos pegássemos um saco em um posto, caso alguém enjoasse e o estômago não segurasse o que estava dentro, coisa que quase aconteceu com meu marido. Contratempos à parte, foi um passeio fantástico. Mesmo com neve apenas nos picos, a paisagem meio lunática de um solo vulcânico era surpreendente pela novidade; até mesmo aquela estrada sinuosa fazia parte da magia.
Nesse
dia, soubemos pelo guia que, na tarde anterior, havia tido um pequeno
tremor de terra, o qual nós nem percebemos. Melhor assim. No
entanto, esse fenômeno comum naquele país nos fez cancelar alguns
passeios. Não sabíamos, mas um grande terremoto, ocorrido dois anos
antes, havia provocado o fechamento de vários locais de visitação
ainda não recuperados.
Eis
que a chuva não limpa só o chão, mas também o ar, e em um dia
após uma noite chuvosa, a nuvem escura se dissipou. Era final de
tarde de um domingo ensolarado, quando fomos passear no boêmio
bairro da Bela Vista, e nos demos conta de que a visão da
Cordilheira, pela qual tanto ansiávamos, estava ali diante dos
nossos olhos. Havia beleza no horizonte com os topos das montanhas
pincelados com flocos de gelo. Mais uma vez não conseguia parar de
olhar e pensei: é como na foto da paisagem que havia visto na
agência onde compramos o passeio do Vale Nevado. Confere.
23/03/2023

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