sábado, 28 de outubro de 2023

Nas cidades dos contos de fadas

 

 
                                          Petit-France - Estrasburgo e Colmar
 

Diferente de todas as outras cidades em que estive com minha família na Europa, Estrasburgo, na França, foi um lugar ao qual voltamos outras vezes. Três passagens ao todo. O motivo: é onde mora uma grande amiga, uma quase irmã. Quando chegamos pela primeira vez no paraíso das cegonhas, sabia por ela que se tratava de uma região encantadora, mas não fazia ideia do quanto.

Ao descer na estação de trem e pegar um moderno bonde elétrico, já fiquei encantada com o transporte público. Não tivemos nenhum problema de nos deslocar com nossas malas. Assim que descansamos de um longo trajeto que havíamos feito nos dias anteriores, saímos para conhecer a parte mais antiga. Um local que ainda conserva todo um sítio de construções medievais, denominado Petite-France e com lindas casas em estilo enxaimel, em razão de sua origem alemã. Para aumentar a nossa admiração, é também cortada por um afluente do Rio Reno, o qual percorremos em um barco que nos proporcionou uma visão inesquecível da parte histórica. Nele atravessamos uma eclusa e tivemos a oportunidade de ver além do que o passeio a pé permitiria.

Na época, embora verão, ainda nos deparamos com um pouco de frio. Com esse clima, a vontade de tomar um café quentinho, quando estávamos na rua, seria inevitável. Porém, numa dessas, ao entrar numa cafeteria que vendia também café gelado, me enganei e pedi um com gelo. Triste foi a minha expressão ao olhar para o copo. Já que era frio, não seria servido em uma xícara. Estávamos meu marido e eu flanando romanticamente pelas antigas ruas de nomes estranhos, quando isso aconteceu. Logo a frustração se transformou em piada para ser contada ao retornarmos à casa da amiga.

Essa incrível cidade também é sede do Parlamento Europeu e fomos conhecer o moderno prédio ladeado pelas bandeiras dos países integrantes desse bloco. E como ela também tem a sua Notre-Dame fomos nos admirar com a sua construção de infinitos detalhes, e uma história impressionante de um relógio construído com inúmeras funções, que não puderam ser usadas. Fica a dica de se pesquisar a respeito.

Foi lá que, na segunda vez em que fomos, descobri a minha lanchonete preferida, o Paul, onde conheci o que seria meu quiche favorito, o Lorraine. Conhecemos, também, as tarteletes francesas salgadas e doces. Curiosamente elas foram o prato principal e a sobremesa de uma jantar, primeiro a salgada e depois a doce, uma comida que, quando voltamos, tivemos de saborear novamente e no mesmo restaurante. Na ocasião era Carnaval então, em um desses dias, cruzamos com o que identificamos como um inusitado bloco, segundo nossos parâmetros, como ex-organizadores de uma troça de Olinda. A começar pelo ritmo da música, para nós aquele grupo soava como algo folclórico, uma espécie de reisado alsaciano. Mas... cada um com seu Momo.

Como está situada na Alsácia, um local onde a rota dos vinhos se insere, tivemos a oportunidade de conhecer diversos vilarejos de contos de fadas, como Riquewihr, Eguishein e Ribeauvillé, Colmar e Obernai, essas duas últimas nossas favoritas as quais visitamos uma vez mais. Todos embelezados por flores que decoram casas e ruas, enchendo de cor suas tradicionais construções.

Depois de familiarizados com a cidade, o supermercado se tornou uma parada obrigatória. Gostávamos de comprar vinhos e queijos deliciosos a preços completamente acessíveis. Uma oportunidade. Então no final do dia, era a nossa forma de ir nos despedindo. Algumas taças, um delicioso queijo para acompanhar e na volta só a saudade daqueles lugares e sabores. Estrasburgo se tornou o nosso destino final em várias viagens. No fim, um excelente lugar para encerrar os nossos roteiros.

28/10/2023

sábado, 21 de outubro de 2023

Dois filmes e uma linda cidade

Quando achávamos que havíamos nos impressionado o suficiente com antigas cidades europeias, nosso encantamento foi além com a bela Salzburgo, na Áustria. Um lugar em que chegamos de trem, após sairmos de Munique. Além de sua beleza, havia mais dois motivos para querermos conhecê-la: por ser o lugar onde Mozart nasceu e viveu até a juventude, e por ser o cenário do antológico filme A noviça rebelde.

Ao caminharmos por suas ruas cheias de lojas de souvenirs e antigas construções extremamente conservadas, nossa admiração só aumentava. Eram tantas as pequenas e graciosas lembrancinhas, que não resistimos à tentação de comprar várias delas, quase todas representando, principalmente, o legado de seu filho, gênio da música clássica. A lojinha de produtos natalinos a qual fez fama e funciona o ano inteiro, é um lugar de sonhos com os enfeites do tema, ornamentos que vemos em filmes decorando magicamente o natal.

Tínhamos um dia para andarmos pelos lugares imperdíveis, então começamos pela Fortaleza de Hohensalzburg, o principal cartão-postal da cidade. Pela sua posição no alto de uma colina, é possível vê-la de quase todos os pontos da região Conhecê-la foi um passeio obrigatório. De lá tivemos uma visão inesquecível do centro histórico e dos Alpes. Difícil descrever o que víamos pelos mais diversos ângulos: de um lado natureza exuberante, de outro, a fotografia de um lugar perfeitamente construído guardando a imagem viva de um passado arquitetônico e cultural. Dentro do castelo, conhecemos o Mundo das Marionetes cujos bonecos retratam a história de um povo, com seus trajes típicos e enredos folclóricos. Um espaço que mais se assemelha a uma taverna medieval.

Nos emocionamos ao conhecer a casa na qual Mozart viveu até os 17 anos. Nela vimos fotos da família e móveis e utensílios usados na época. Um outro passeio empolgante foi a ida aos cenários do filme da noviça, interpretada por Julie Andrews. Fomos à Abadia de São Pedro, onde parte encontra-se encravada em uma montanha de pedra. Seu cemitério instalado em um jardim ricamente florido e com lápides que são obras de arte esculpidas, o tornam único. Nele, a família Von Trapp, do filme, se escondeu dos nazistas. Fizemos também belos registros nos jardins do Palácio Mirabell, palco de uma das famosas cenas musicais desse longa-metragem e de grandes concertos locais. Tudo tão bem preservado que acaba sendo uma viagem instantânea pelo túnel do tempo. 50 anos após as filmagens, pudemos ter a mesma visão e estar nos mesmos espaços que os atores.

Após termos conhecido quase toda a parte histórica, passeávamos pelo Rio Salzach, o qual corta a cidade, quando a tarde começou a cair e vimos o pôr do sol de suas margens, um local de paisagens imperdíveis. Caminhando por lá, atravessamos a ponte dos cadeados com suas laterais abarrotadas desses objetos de superstição dos apaixonados. Um problema para a prefeitura, pois vez ou outra precisa aliviar esse peso sobre a ponte. Tiramos inúmeras fotos e fomos nos despedir de Mozart, reverenciando o seu monumento na praça de mesmo nome, uma bela homenagem da cidade ao seu filho mais ilustre.

Ao retornarmos, fomos tomados por uma imensa vontade de rever os filmes Amadeus e A noviça rebelde. Só para ficarmos feito bobos: "Nossa! Estivemos aí". Seria como se a diversão continuasse. E foi.

21/10/2023

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

O Castelo dos sonhos

 

Uma das melhores coisas de nossa passagem por Munique foi nos hospedarmos em frente a estação de trem. Ao chegarmos de Berlim, foi suficiente atravessarmos a rua para, antes de nos cansarmos com as malas, estarmos em nosso quarto. Foi também um facilitador para o café da manhã. Em uma lanchonete que servia deliciosos pãezinhos para todos gostos, fazíamos nosso desjejum, em seguida pegávamos o metrô para iniciarmos os passeios.

Nosso primeiro destino foi o prédio da prefeitura, uma linda construção que é também um lugar turístico e um ponto de encontro. Além disso, duas vezes por dia tocava uma música e acontecia um show de bonecos. Com todos esses predicados era normal haver concentração de pessoas e um clima descontraído. Passávamos por lá diversas vezes por ser um lugar próximo a outras atrações. Foi nas suas imediações que conhecemos duas agradáveis Cervejarias.

Tivemos a sorte de estar na Paulaner, uma tradicional casa e marca de Cerveja, quando um grupo de animados torcedores do Bayer de Munique chegaram de um jogo onde o time deles havia saído vencedor. Foi divertido testemunhar a alegria dos barulhentos torcedores, todos vestidos a caráter com curiosos artefatos com as cores do famoso Clube.

Monumentos, igrejas, teatros e prédios públicos em diversos estilos antigos nos deixaram encantados. Era preciso escolher um Palácio para visitar e fomos ao Residenz, hoje um museu de decoração de interiores, após ter servido de residência para Reis da Baviera. Com 130 salas, quando começamos nossa caminhada nos primeiros salões, ficamos impressionados com a beleza do lugar. Mas após passar por dezenas de quartos, ja não distinguíamos um do outro e nem víamos o fim, como se estivéssemos em um labirinto, então procuramos a saída e nos apressamos rumo a outros destinos. Foi inusitado.

Em geral gostamos de almoçar um dia em um mercado local de onde estamos, então comemos no Viktualienmarkt em uma das mesas de madeira em uma praça cheia de barracas de comida. Para variar, comemos um dos típicos pratos de linguiça da região, não sem antes nos atrapalharmos para entender a diferença entre as opções existentes, na hora de fazer o nosso pedido, coisa que Alemão não tem paciência para, característica normal nos europeus e aparentemente pior na Alemanha.

Conhecemos belos lugares, mas nada comparado ao Castelo Neuschwanstein. Pegamos um trem junto com uma guia brasileira muito simpática e, após duas horas em uma agradável viagem, chegamos a Füssen. De lá tomamos um ônibus até a pequena cidade do castelo. Embora final do inverno, nos deparamos com um cenário coberto de neve e um lago congelado, no qual antes de retornarmos, experimentamos a sensação de andar se equilibrando sobre o gelo.

Para subirmos a pequena colina onde fica o castelo, o transporte foi uma carruagem puxada por lindos cavalos com longas crinas. Lá pudemos confirmar que, de fato, se parece com o da Cinderela criado pela Disney. Dizem que foi a inspiração para os americanos. Além da beleza, possui uma história peculiar. O rei Ludwig II que o construiu, era alguém com talento para arquitetura e decoração, na época considerado características pouco aceitas em um homem, então o taxaram de louco e o tiraram do trono. Velhas histórias de antigos preconceitos.

Em contrapartida no nosso ultimo dia na cidade, fomos conhecer o Campo de Concentração de Dachau, onde funcionou uma prisão mista com opositores do regime, padres e pessoas consideradas de raças inferiores. Senti que seria a experiência mais impactante, então me preparei para esse momento. Saber o que aconteceu é diferente de estar no lugar onde o extermínio se processava. Teve um efeito profundo em nós ver os objetos e documentos dos prisioneiros, fotos com detalhes da forma degradante e animalesca como viviam e a descoberta de que ali foram também presos e mortos centenas de padres pendurados pelos pés. O museu criado no local nos conta e mostra histórias tão chocantes que nos faz pensar em como o ser humano consegue ser tão ultrajante e inacreditavelmente perverso. E o pior é pensar que ainda existem tantas pessoas mundo afora que apoiam e adotam gestos e ideias de regimes fascistas promotores de atrocidades do tipo.

Foi mais um momento de aprendizado em uma viagem cheia de descobertas e surpresas. Primordialmente sobre um povo regrado que paradoxalmente tem a cerveja (com regras estabelecidas e selo de pureza) e a Oktoberfest como instituições nacionais.

13/10/2023