sábado, 30 de dezembro de 2023

O inesquecível sabor de queijo

 

Torre Wasserturm e ponte coberta Kappellbrücke             


Após um razoável café no Budget, onde estávamos hospedados em Berna, partimos em direção a Lucerna. Uma cidade com predicados que nos fez inseri-la no nosso diminuto roteiro na Suíça. Quando entramos em suas ruas movimentadas, a primeira preocupação foi encontrar um lugar para estacionar o carro. Eis que o milagre da tecnologia logo nos apontou onde havia estacionamentos por perto, então deixamos o carro em um, e fomos explorar o centro a pé.

O frio foi nosso companheiro nesse dia. Uma chuva fina quase atrapalhou nossa aventura, mas seguimos dispostos. Isto foi recompensado com a visão da mais velha ponte coberta da Europa, a Kappellbrücke. Construída em madeira sobre o Rio Reuss, possui uma torre denominada Wasserturm, a qual já serviu a diversos propósitos, até mesmo como capela. Sua função era ligar a cidade velha à nova, além de protegê-la de ataques vindos do lago. Até então, nunca havíamos conhecido uma com essa estrutura.

Como a partir de uma das margens do rio é possível visualizar parte dos Alpes, no inverno, a visão dessas montanhas cobertas por neve estimula a nossa admiração. Da mesma forma, o reflexo, sobre as águas, do conjunto de construções históricas que margeiam o rio, nos provocava a mesma sensação. Passamos um tempo nos deslumbrando com essas paisagens.

A Jesuitenkirche, ou Igreja dos Jesuítas, é uma dessas maravilhas. Uma impressionante construção barroca feita na contrarreforma, um movimento católico que reprimia a onda protestante. Constitui um dos cartões postais da cidade com sua fachada imponente de cúpulas abauladas e pontiagudas. Tiramos algumas fotos com essa imagem de fundo. De tão próxima da margem do Rio Reuss nem parece que estão separados por uma rua. Não conseguia evitar de pensar que estava diante de um cenário de filme ou de programa de TV, que mostra lugares os quais não imaginamos que um dia visitaremos.

Ainda tivemos tempo de conhecer as muralhas de Lucerna, uma grandiosa construção com torres e passagens estreitas, onde é preservada a história militar da cidade. De lá, saímos empolgados para tomar um delicioso chocolate quente suíço. No entanto, a nossa decepção foi imensa ao nos servirem uma enorme xícara de caldo, cujo sabor se assemelhava a um achocolatado comum em nosso país. Fui me informar a respeito e confirmei que minhas expectativas não correspondiam à realidade.

Entretanto, inesperadamente, tivemos uma boa surpresa ao passarmos por uma loja de queijos da fazenda. A balconista nos ofereceu uma degustação e ficamos maravilhados. Foi certamente o queijo mais saboroso que já experimentamos. Compramos um pedaço e o levamos para comer na casa da amiga, onde estávamos hospedados no país vizinho. Lá soubemos que ele era produzido a partir do leite de vacas holandesas que só comiam um tipo de pasto natural, o qual lhe proporciona um sabor inigualável. Soubemos também que o teor de gordura era tão alto que tínhamos de comer pequenas porções para evitar desarranjos intestinais. Para não nos esquecermos desse episódio, compramos de lembrança uma bela tábua de madeira para queijo toda decorada. Eu a coloquei na parede da cozinha, onde gosto de admirá-la todos os dias.

Nossa breve passagem por esta cidade foi inesquecível. Desfrutamos de uma paisagem única, diferente de outras cidades por onde havíamos passado. Ficamos tão encantados que lamentamos não podermos ter ficado mais tempo. O fato é que hoje Lucerna, para nós, tem sabor de queijo, não um qualquer, mas o melhor, aquele cujo sabor jamais esqueceremos.

30/12/2023

sábado, 16 de dezembro de 2023

O relógio astronômico

O filho fotografando a Torre
do Relógio astronômico


Estávamos em Estrasburgo, na casa de uma amiga, quando o plano era passear pela região da Alsácia, um lugar de lindas cidades em estilo medieval. Mas, também, aproveitar que havíamos alugado um carro e conhecer duas cidades na Suíça, porque seria a oportunidade.

Para tanto, compramos um adesivo, o qual foi colocado no vidro do carro, pois seria um passe para cruzarmos a fronteira. Ao adentrarmos no país conhecido pelos seus chocolates, paramos em um posto de gasolina para tomar um café. Foi o mais impressionante em que já estivemos, com uma loja gigante, que vendia deliciosos cafés e lanches. Tudo tão perfeito para uma loja de conveniência, que até o banheiro era primorosamente cuidado.

Chegamos em Berna, em um quase bate-e-volta, pois tínhamos apenas um dia para conhecer os pontos mais interessantes. Aproveitamos bem. Tiramos belas fotos no centro. Passamos em frente ao escritório onde Einstein trabalhou, e nos impressionamos com uma loja de vinhos, cujas garrafas tinham um tamanho avantajado e na vitrine já chamavam a atenção dos transeuntes.

Nos encantamos com o Zytglogge, a torre de um relógio astronômico, construído pouco depois do descobrimento do Brasil. Ele indica os dias do mês e da semana, as quatro estações, as fases da lua, o posicionamento da Terra em sua órbita e até os signos. E ao caminhar pelas margens do Rio Aar que cruza a cidade com suas águas cor de esmeralda, desfrutamos de paisagens fantásticas. De suas pontes, fizemos registros, os quais ficarão em nossas lembranças. A Catedral da cidade foi outro ponto visitado por nós, por sua beleza única, além dos diversos jardins e ruas medievais da parte histórica.

Dos percalços dessa passagem, ocorreu um: pegamos trem elétrico na direção errada, tivemos de descer algumas paradas depois e, em seguida, retornar ao ponto onde o havíamos pegado inicialmente. Ação necessária para seguirmos no sentido correto. Além disso, como a linha desse trem passava exatamente em frente ao nosso hotel, a noite foi mal dormida em razão de uma manutenção dos trilhos nessa madrugada. Era um tal de "Pain! Pain! Pain!”, o qual vimos, pela janela, que se tratava de marteladas para ajuste do metal, onde deslizam os vagões, em seus vai-e-vens diários. E para variar, como era inverno, havia aquecimento no quarto, o qual não podíamos controlar. Começamos, então, a sentir calor, algo comum de acontecer a brasileiros nessas situações. A solução: abrir a janela e deixar entrar um pouco do ar gelado, equilibrando a temperatura.

O curioso foi descobrir que o famoso índice McDonald's, o qual reflete o poder de compra no país conforme o preço do Big Mac, lá é um dos mais altos do mundo. Se este fast food sempre nos salva nas situações em que o preço aperta, quando estamos fora do Brasil, dessa vez foi inusitado constatar que nem lá estávamos a salvo. Em compensação, foi a salada mais gostosa que já comi nessa rede.

Nesse contexto, confirmamos que precisávamos de mais de um dia para explorar tudo o que a cidade oferecia. Entretanto, o índice Big Mac nos dizia: NÃO! Ainda dormimos lá uma noite, mas cedo, partimos para conhecer outra cidade. É claro, não sem antes passar em uma das lojas de chocolate e levar o que nos cabia, legítimos assim como os relógios e canivetes multiuso, que ganharam fama mundial. Destes últimos, ainda compramos um exemplar, que servirá por uma vida: vermelhinho, com uma cruz em cima, para daqui a algumas décadas ainda lembrarmos de onde ele veio.

16/12/2023


sexta-feira, 8 de dezembro de 2023

Uma estranha corrida

Mirante das Mangabeiras


Próxima parada: Ouro Preto. Mais uma vez? Sim . Seria a terceira vez em uma cidade que nos conquistou. Andar por suas velhas ruas é sempre prazeroso, uma viagem no tempo. A sensação que ela nos provoca nos deixa sempre uma saudade com desejo de voltar.

Foi com esse espírito que chegamos com o casal de amigos que estava conosco em Inhotim. Visitamos mais uma vez lugares os quais já conhecíamos para mostrar a eles: museus, igrejas, casarões, paisagens e novamente comemos pão de queijo em nossa lanchonete favorita. A novidade foi conhecer uma pizzaria de sabores incríveis.

Dessa vez, era inverno e nos deparamos com um frio que nos deixava um pouco desconfortáveis à noite. Foi preciso deixar o bar que sempre íamos porque o sistema de aquecimento a gás era ineficiente. Um lugar despreparado para esse clima e onde as paredes de pedra das casas centenárias guardam o frio. Nesse cenário, só com muitas camadas de cobertas para conseguirmos dormir.

Depois de aproveitarmos o clima aconchegante e concluir o nosso roteiro, pegamos a estrada para a capital mineira. Muitas curvas, em pouco tempo quase todos dormiam no carro. Chegamos cansados e famintos em Belo Horizonte, mas havia uma missão: devolver o carro à locadora. O difícil foi encontrar o caminho em um lugar com rotatórias cercadas de inúmeras saídas. Depois de um custoso embrolho com um italiano cujo carro tentava entregar, mas ninguém falava a sua língua, nos desvencilhamos do automóvel para não termos que dirigir em um difícil trânsito para nós.

Fizemos um roteiro de um dia para BH. Após um delicioso café da manhã no Mercado Central, partimos para começar nossos passeios. Chamamos dois táxis e começou uma corrida imaginária. O casal que estava conosco chegou primeiro em um museu o qual havíamos acertado para conhecer. Lá nos cruzamos. E enquanto assistíamos a uma interessantíssima apresentação onde um grupo de atores encenavam um momento da Inconfidência mineira, cada um inserido em um dos quadros das paredes, o casal de amigos saiu para o próximo destino.

Os dois se dirigiram ao Mineirão para uma visita guiada. Como a próxima já iria começar, optaram por seguirem sem nós, que estávamos a caminho. Nesse contexto, tivemos que entrar no horário seguinte quando eles estavam saindo e optaram mais uma vez de continuar sozinhos. Era horário de almoço e o plano inicial era almoçarmos juntos, mas...

Cada grupo seguiu separado. Então almoçamos rápido e nos apressamos a fim de subir o Mirante das Mangabeiras, um agradável parque, de onde teríamos uma fantástica vista da cidade. Acreditamos que eles estariam lá a nossa espera, entretanto, mais uma vez fomos surpreendidos e ficamos meu marido, meu filho e eu a contemplar a paisagem e nos perguntar onde estaria o casal e porque não haviam nos esperado. A resposta foi que queriam aproveitar o único dia na cidade e não quiseram perder tempo, então correram para "cruzar uma imaginária linha de chegada".

Na volta desse passeio resolvemos tomar um café em uma simpática cafeteria toda decorada com fotos de artistas da terra. Lá nos indicaram um bar onde muitos artistas mineiros costumavam se encontrar, alguns do famoso Clube da Esquina o qual sou fã. Quase íamos, mas a distância nos fez desistir. Essa foi uma decisão na qual me arrependi profundamente. Uma oportunidade que dificilmente terei novamente.

Naquela noite, fomos a um restaurante comemorar o meu aniversário e fizemos um brinde a viagem na qual nos divertimos muito e conhecemos novas e belas paisagens. O casal preferiu uma balada. Respeitamos a escolha. No dia seguinte, nos despedimos e cada grupo pegou seu voo de volta para casa - eu já pensando na próxima aventura na terra das Minas Gerais.

 

02/12/2023

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Um lago cinematográfico

 

Inhotim

A ideia principal era conhecer Inhotim, um lugar que, um dia, eu tinha visto em um programa. A vontade de conhecê-lo imediatamente fez moradia em meus desejos. Saímos da Serra do Cipó (MG) para nos hospedar em Brumadinho, um ano antes do fatídico acidente da siderúrgica Vale do Rio Doce, após a ruptura de uma barragem.

A nossa acomodação na pousada era uma espécie de chalé. Nessa parte da viagem, um casal de amigos se reuniu a nós, cada um no seu espaço. Mas no friozinho da noite, um convite a umas taças de vinho nos levou à cidade para prepararmos uma noitada no terraço do chalé. Compramos bebida, queijos e outros tira-gostos. Em seguida, arrumamos uma mesa para o ambiente ficar completo. Aquecidos pelas conversas e pelo vinho, nossa noite foi muito divertida.

O dia seguinte foi destinado para conhecer o parque de Inhotim. Ao chegarmos lá, confirmamos que era uma área que, para ser totalmente desfrutada, necessitaria de dois dias de visita, mas em um dia seria também possível aproveitar bastante. Decidimos que assim o faríamos, porque ainda tínhamos de passar por duas cidades.

O que atrai o visitante, além da beleza natural do local, por ser um espaço de preservação, são as obras de arte para serem admiradas ao ar livre. Enormes e criativas, construídas com os mais diversos materiais, impressionam e nos provocam. Elas possuem significados e falam aos observadores. Além disso, existem curiosos espaços que oferecem experiência sensoriais.

Em meio às paisagens naturais, somos surpreendidos com um impressionante lago azul, para o qual é difícil parar de olhar. A explicação para a cor da água é o material que compõe o solo. Tiramos algumas fotos que, pintadas por essa visão, não havia como não ser um cenário de filme. Um Oscar de melhor fotografia cairia bem.

Como a maioria dos que vão até lá se propõem a passar pelo menos um dia inteiro, existe um enorme restaurante para servir aos inúmeros clientes. Um excelente lugar para comer, completando o agradável passeio. Enquanto nos maravilhávamos com tudo o que víamos, ficava pensando e ao mesmo tempo sentindo orgulho de existir um parque como aquele em nosso país. É preciso dizer que, infelizmente, não é algo comum, então foi um feliz achado. Descobrir a sua existência e ver de perto todo um trabalho de quem o criou e o mantém foi gratificante. Que continue sendo conservado, pois é um ótimo lugar para se conhecer e desfrutar!

27/11/2023

domingo, 19 de novembro de 2023

Uma Serra inesquecível

Cachoeira Grande - Serra do Cipó

No roteiro ecológico, após a partida de Diamantina, estavam Serro e Serra do Cipó. A primeira, embora pequeno seu sítio histórico, assim como o próprio município, guarda uma beleza que valeu uma passagem só para conhecer o seu cartão postal, a escadaria da Igreja de Santa Rita. Essa pequena construção detém uma característica comum na região que é a de se assemelhar a uma graciosa miniatura.

Reservamos um dia para conhecer a cidade, tempo suficiente para a pequenina Serro. No dia seguinte, fomos para Serra do Cipó. Ao chegarmos à pousada, imediatamente, percebemos que seria uma experiência diferente do que costumávamos ter. O local se assemelhava a um sítio, com um quintal cheio de árvores. Fomos muito bem recebidos pelo proprietário, um típico mineiro cheio de histórias para contar, com quem gostávamos de conversar.

Logo no primeiro dia, disse-nos que, se quiséssemos tomar um vinho à noite, ele nos prepararia uma mesa na sala de refeições. O espaço possuía um tom de aconchego com um mobiliário rural e toalhas xadrez, fazendo-nos sentir acolhidos. Era só avisar e ele já deixava além das taças, pratos e talheres para os tira-gostos. Comprávamos um pedaço de queijo e a festa estava completa, sempre acompanhada de uma conversa animada com o nosso cicerone.

Perto dali havia uma bela cachoeira onde poderíamos ir a pé; ficava em um parque organizado para ser um ponto de visitação. A queda d'água não era volumosa, mas tinha uma altura impressionante, desaguando em um lago de águas tranquilas. Difícil enquadrá-la em uma foto, mas conseguimos! Além dessa, havia outras, as quais fomos conhecer. Dessa vez, de carro. O curioso foi que, após passarmos em uma bifurcação que previa a chegada em 3 km, tivemos a falsa sensação de que andamos o dobro e, na volta, a metade. Ficamos tão confusos, que ríamos de nós mesmos. A parte boa era sempre sermos presenteados pela natureza com uma visão compensadora.

Para conhecer outras paisagens, nos dispusemos a fazer uma trilha de bicicleta, que findava com uma caminhada até uma cachoeira, com acesso limitado a pedestres. Pedalamos por 8 km e andamos cerca de 10 minutos até o nosso objetivo. A vista da enorme e incrível queda d'água nos animou. Após nos refrescarmos um pouco na água, fizemos o caminho inverso. Dessa vez, confiante após ter vencido a distância da ida, me senti um ás das duas rodas e voltamos voando. Quanto mais o vento lambia o meu rosto, mais queria desfrutar daquela sensação. Décadas sem praticar o equilíbrio naquele veículo, transformaram o passeio em um desafio. Nesse clima, a chegada teve gosto de vitória e o sabor dessa aventura ficou gravada para sempre no baú das boas recordações.

Aquela cidadezinha, no entanto, tinha mais a oferecer. À noite, os bares faziam fogueiras a fim de aquecer os visitantes, uma novidade para nós, acostumados a ver aquecedores elétricos ou a lenha nesses locais. Tudo parecia mais rústico e familiar. Aproveitamos para conhecer alguns deles e comprar lembrancinhas nas lojas de lindos souvenirs. Na ocasião, fiquei encantada com os produtos locais e de outros lugares que eles dispunham. Entretanto, era preciso ter discernimento para não enchermos nossas bagagens, pois ainda havia muita estrada pela frente e pouco espaço disponível em nossas malas. Foram nossos últimos momentos na acolhedora Serra do Cipó, de onde iríamos para Brumadinho (isso aconteceu um ano antes do acidente da Vale do Rio Doce). 

19/11/2023

sexta-feira, 10 de novembro de 2023

A cidade dos diamantes

Diamantina


Era um desejo do meu imaginário conhecer Diamantina. Ouvia muito falar do seu Carnaval. No entanto, quando li "Os sonhos não envelhecem", de autoria de Márcio Borges, fiquei ainda mais curiosa para ver de perto o lugar onde parte da turma do Clube da Esquina foi, um dia, em busca de inspiração.

O melhor foi constatar que ela era tão inspiradora quanto havia imaginado. Cheia de ruas e recantos que nos convidam a todo momento a uma fotografia. Seu sítio histórico nos transporta facilmente ao passado. Era o meio do ano quando a visitamos. Um clima agradável nos acompanhava com noites bastante frias, em que nos aquecíamos com uma bebida a qual esquentasse o corpo e a alma. O em torno cheio de natureza exuberante também nos conquistou e aproveitamos para conhecer belas paisagens, incluindo rios e cachoeiras.

Quando descobri que a casa de Xica da Silva, uma mulher negra que deixou a sua marca em uma época de puro preconceito e escravagismo, ainda existia, quis muito conhecê-la. A música que leva o seu nome marcou uma época da minha vida, e aquela antiga construção criaria uma conexão com as minhas lembranças.

Suas ruas de pedra guardam muita história. Lá o ex-presidente Juscelino Kubitschek, um filho ilustre daquela terra, também deixou seu pedaço de vida. Uma parte de sua passagem ficou registrada em uma casa onde viveu até a sua juventude e hoje é um lugar de visitação o qual colocamos em nosso roteiro.

Um lindo passadiço tornou-se símbolo da cidade e criou uma visão perfeita para uma foto. Suas incontáveis ladeiras que cansam os visitantes, mas são a fonte de exercícios de seus moradores, criam um ar romântico com seus casarões cheios de eiras e beiras.

Um passeio imperdível para quem está turistando na região é conhecer Biribiri, uma pequena vila que parece ter parado no tempo. À primeira vista, é inevitável associá-la a um cenário de novela de época. Chegar lá em um dia comum foi encontrar um silêncio que já não conhecemos. Algo como só ouvir os sons da natureza: o farfalhar das folhas ou o canto dos pássaros. Um lugar ideal para, acima de tudo, descansar nossos neurônios.

Ao deixar para trás a cidade dos antigos exploradores de diamante, meus olhos só agradeciam por tudo que viram. E também pela experiência de me sentir em um tempo vivido por uma cultura tão diferente da nossa, mas tão marcante, que deixou sua alma em cada palmo de chão e parede. Ainda hoje eles nos falam de seu modo de vida e o que de bom e de ruim foi deixado como legado. Uma mensagem para quem tem olhos para ver. Um lugar que nos faz até pensarmos que se vivêssemos lá, a vida passaria com mais vagar.


10/11/2023

sábado, 28 de outubro de 2023

Nas cidades dos contos de fadas

 

 
                                          Petit-France - Estrasburgo e Colmar
 

Diferente de todas as outras cidades em que estive com minha família na Europa, Estrasburgo, na França, foi um lugar ao qual voltamos outras vezes. Três passagens ao todo. O motivo: é onde mora uma grande amiga, uma quase irmã. Quando chegamos pela primeira vez no paraíso das cegonhas, sabia por ela que se tratava de uma região encantadora, mas não fazia ideia do quanto.

Ao descer na estação de trem e pegar um moderno bonde elétrico, já fiquei encantada com o transporte público. Não tivemos nenhum problema de nos deslocar com nossas malas. Assim que descansamos de um longo trajeto que havíamos feito nos dias anteriores, saímos para conhecer a parte mais antiga. Um local que ainda conserva todo um sítio de construções medievais, denominado Petite-France e com lindas casas em estilo enxaimel, em razão de sua origem alemã. Para aumentar a nossa admiração, é também cortada por um afluente do Rio Reno, o qual percorremos em um barco que nos proporcionou uma visão inesquecível da parte histórica. Nele atravessamos uma eclusa e tivemos a oportunidade de ver além do que o passeio a pé permitiria.

Na época, embora verão, ainda nos deparamos com um pouco de frio. Com esse clima, a vontade de tomar um café quentinho, quando estávamos na rua, seria inevitável. Porém, numa dessas, ao entrar numa cafeteria que vendia também café gelado, me enganei e pedi um com gelo. Triste foi a minha expressão ao olhar para o copo. Já que era frio, não seria servido em uma xícara. Estávamos meu marido e eu flanando romanticamente pelas antigas ruas de nomes estranhos, quando isso aconteceu. Logo a frustração se transformou em piada para ser contada ao retornarmos à casa da amiga.

Essa incrível cidade também é sede do Parlamento Europeu e fomos conhecer o moderno prédio ladeado pelas bandeiras dos países integrantes desse bloco. E como ela também tem a sua Notre-Dame fomos nos admirar com a sua construção de infinitos detalhes, e uma história impressionante de um relógio construído com inúmeras funções, que não puderam ser usadas. Fica a dica de se pesquisar a respeito.

Foi lá que, na segunda vez em que fomos, descobri a minha lanchonete preferida, o Paul, onde conheci o que seria meu quiche favorito, o Lorraine. Conhecemos, também, as tarteletes francesas salgadas e doces. Curiosamente elas foram o prato principal e a sobremesa de uma jantar, primeiro a salgada e depois a doce, uma comida que, quando voltamos, tivemos de saborear novamente e no mesmo restaurante. Na ocasião era Carnaval então, em um desses dias, cruzamos com o que identificamos como um inusitado bloco, segundo nossos parâmetros, como ex-organizadores de uma troça de Olinda. A começar pelo ritmo da música, para nós aquele grupo soava como algo folclórico, uma espécie de reisado alsaciano. Mas... cada um com seu Momo.

Como está situada na Alsácia, um local onde a rota dos vinhos se insere, tivemos a oportunidade de conhecer diversos vilarejos de contos de fadas, como Riquewihr, Eguishein e Ribeauvillé, Colmar e Obernai, essas duas últimas nossas favoritas as quais visitamos uma vez mais. Todos embelezados por flores que decoram casas e ruas, enchendo de cor suas tradicionais construções.

Depois de familiarizados com a cidade, o supermercado se tornou uma parada obrigatória. Gostávamos de comprar vinhos e queijos deliciosos a preços completamente acessíveis. Uma oportunidade. Então no final do dia, era a nossa forma de ir nos despedindo. Algumas taças, um delicioso queijo para acompanhar e na volta só a saudade daqueles lugares e sabores. Estrasburgo se tornou o nosso destino final em várias viagens. No fim, um excelente lugar para encerrar os nossos roteiros.

28/10/2023

sábado, 21 de outubro de 2023

Dois filmes e uma linda cidade

Quando achávamos que havíamos nos impressionado o suficiente com antigas cidades europeias, nosso encantamento foi além com a bela Salzburgo, na Áustria. Um lugar em que chegamos de trem, após sairmos de Munique. Além de sua beleza, havia mais dois motivos para querermos conhecê-la: por ser o lugar onde Mozart nasceu e viveu até a juventude, e por ser o cenário do antológico filme A noviça rebelde.

Ao caminharmos por suas ruas cheias de lojas de souvenirs e antigas construções extremamente conservadas, nossa admiração só aumentava. Eram tantas as pequenas e graciosas lembrancinhas, que não resistimos à tentação de comprar várias delas, quase todas representando, principalmente, o legado de seu filho, gênio da música clássica. A lojinha de produtos natalinos a qual fez fama e funciona o ano inteiro, é um lugar de sonhos com os enfeites do tema, ornamentos que vemos em filmes decorando magicamente o natal.

Tínhamos um dia para andarmos pelos lugares imperdíveis, então começamos pela Fortaleza de Hohensalzburg, o principal cartão-postal da cidade. Pela sua posição no alto de uma colina, é possível vê-la de quase todos os pontos da região Conhecê-la foi um passeio obrigatório. De lá tivemos uma visão inesquecível do centro histórico e dos Alpes. Difícil descrever o que víamos pelos mais diversos ângulos: de um lado natureza exuberante, de outro, a fotografia de um lugar perfeitamente construído guardando a imagem viva de um passado arquitetônico e cultural. Dentro do castelo, conhecemos o Mundo das Marionetes cujos bonecos retratam a história de um povo, com seus trajes típicos e enredos folclóricos. Um espaço que mais se assemelha a uma taverna medieval.

Nos emocionamos ao conhecer a casa na qual Mozart viveu até os 17 anos. Nela vimos fotos da família e móveis e utensílios usados na época. Um outro passeio empolgante foi a ida aos cenários do filme da noviça, interpretada por Julie Andrews. Fomos à Abadia de São Pedro, onde parte encontra-se encravada em uma montanha de pedra. Seu cemitério instalado em um jardim ricamente florido e com lápides que são obras de arte esculpidas, o tornam único. Nele, a família Von Trapp, do filme, se escondeu dos nazistas. Fizemos também belos registros nos jardins do Palácio Mirabell, palco de uma das famosas cenas musicais desse longa-metragem e de grandes concertos locais. Tudo tão bem preservado que acaba sendo uma viagem instantânea pelo túnel do tempo. 50 anos após as filmagens, pudemos ter a mesma visão e estar nos mesmos espaços que os atores.

Após termos conhecido quase toda a parte histórica, passeávamos pelo Rio Salzach, o qual corta a cidade, quando a tarde começou a cair e vimos o pôr do sol de suas margens, um local de paisagens imperdíveis. Caminhando por lá, atravessamos a ponte dos cadeados com suas laterais abarrotadas desses objetos de superstição dos apaixonados. Um problema para a prefeitura, pois vez ou outra precisa aliviar esse peso sobre a ponte. Tiramos inúmeras fotos e fomos nos despedir de Mozart, reverenciando o seu monumento na praça de mesmo nome, uma bela homenagem da cidade ao seu filho mais ilustre.

Ao retornarmos, fomos tomados por uma imensa vontade de rever os filmes Amadeus e A noviça rebelde. Só para ficarmos feito bobos: "Nossa! Estivemos aí". Seria como se a diversão continuasse. E foi.

21/10/2023

sexta-feira, 13 de outubro de 2023

O Castelo dos sonhos

 

Uma das melhores coisas de nossa passagem por Munique foi nos hospedarmos em frente a estação de trem. Ao chegarmos de Berlim, foi suficiente atravessarmos a rua para, antes de nos cansarmos com as malas, estarmos em nosso quarto. Foi também um facilitador para o café da manhã. Em uma lanchonete que servia deliciosos pãezinhos para todos gostos, fazíamos nosso desjejum, em seguida pegávamos o metrô para iniciarmos os passeios.

Nosso primeiro destino foi o prédio da prefeitura, uma linda construção que é também um lugar turístico e um ponto de encontro. Além disso, duas vezes por dia tocava uma música e acontecia um show de bonecos. Com todos esses predicados era normal haver concentração de pessoas e um clima descontraído. Passávamos por lá diversas vezes por ser um lugar próximo a outras atrações. Foi nas suas imediações que conhecemos duas agradáveis Cervejarias.

Tivemos a sorte de estar na Paulaner, uma tradicional casa e marca de Cerveja, quando um grupo de animados torcedores do Bayer de Munique chegaram de um jogo onde o time deles havia saído vencedor. Foi divertido testemunhar a alegria dos barulhentos torcedores, todos vestidos a caráter com curiosos artefatos com as cores do famoso Clube.

Monumentos, igrejas, teatros e prédios públicos em diversos estilos antigos nos deixaram encantados. Era preciso escolher um Palácio para visitar e fomos ao Residenz, hoje um museu de decoração de interiores, após ter servido de residência para Reis da Baviera. Com 130 salas, quando começamos nossa caminhada nos primeiros salões, ficamos impressionados com a beleza do lugar. Mas após passar por dezenas de quartos, ja não distinguíamos um do outro e nem víamos o fim, como se estivéssemos em um labirinto, então procuramos a saída e nos apressamos rumo a outros destinos. Foi inusitado.

Em geral gostamos de almoçar um dia em um mercado local de onde estamos, então comemos no Viktualienmarkt em uma das mesas de madeira em uma praça cheia de barracas de comida. Para variar, comemos um dos típicos pratos de linguiça da região, não sem antes nos atrapalharmos para entender a diferença entre as opções existentes, na hora de fazer o nosso pedido, coisa que Alemão não tem paciência para, característica normal nos europeus e aparentemente pior na Alemanha.

Conhecemos belos lugares, mas nada comparado ao Castelo Neuschwanstein. Pegamos um trem junto com uma guia brasileira muito simpática e, após duas horas em uma agradável viagem, chegamos a Füssen. De lá tomamos um ônibus até a pequena cidade do castelo. Embora final do inverno, nos deparamos com um cenário coberto de neve e um lago congelado, no qual antes de retornarmos, experimentamos a sensação de andar se equilibrando sobre o gelo.

Para subirmos a pequena colina onde fica o castelo, o transporte foi uma carruagem puxada por lindos cavalos com longas crinas. Lá pudemos confirmar que, de fato, se parece com o da Cinderela criado pela Disney. Dizem que foi a inspiração para os americanos. Além da beleza, possui uma história peculiar. O rei Ludwig II que o construiu, era alguém com talento para arquitetura e decoração, na época considerado características pouco aceitas em um homem, então o taxaram de louco e o tiraram do trono. Velhas histórias de antigos preconceitos.

Em contrapartida no nosso ultimo dia na cidade, fomos conhecer o Campo de Concentração de Dachau, onde funcionou uma prisão mista com opositores do regime, padres e pessoas consideradas de raças inferiores. Senti que seria a experiência mais impactante, então me preparei para esse momento. Saber o que aconteceu é diferente de estar no lugar onde o extermínio se processava. Teve um efeito profundo em nós ver os objetos e documentos dos prisioneiros, fotos com detalhes da forma degradante e animalesca como viviam e a descoberta de que ali foram também presos e mortos centenas de padres pendurados pelos pés. O museu criado no local nos conta e mostra histórias tão chocantes que nos faz pensar em como o ser humano consegue ser tão ultrajante e inacreditavelmente perverso. E o pior é pensar que ainda existem tantas pessoas mundo afora que apoiam e adotam gestos e ideias de regimes fascistas promotores de atrocidades do tipo.

Foi mais um momento de aprendizado em uma viagem cheia de descobertas e surpresas. Primordialmente sobre um povo regrado que paradoxalmente tem a cerveja (com regras estabelecidas e selo de pureza) e a Oktoberfest como instituições nacionais.

13/10/2023

sábado, 30 de setembro de 2023

Os diversos muros de uma cidade

 
                                                            Cúpula do Parlamento                                    Com o Traband

 

Chegar a Tegel, o pequeno aeroporto de Berlim, não nos daria a dimensão daquela cidade. Foi inesperado nos deparar com aquela estrutura e, na sala de embarque, encontrar uma moradora, conterrânea do meu marido.

Os roteiros ligados ao tema da Segunda Guerra Mundial (assunto fascinante) e o muro de Berlin nos empolgavam. Começamos pelo lugar onde ficam a famosa torre de TV, um dos símbolos da cidade, e o Relógio Mundial, construção genial que indica a hora de 146 cidades.

Quanto passado em uma metrópole que já foi dividida em duas! Ficamos impressionados com o museu DDR*, o qual guarda uma lembrança da antiga vida na Alemanha Oriental, Um lugar onde foi criada uma réplica de um apartamento totalmente decorado e dividido como na época, desde a porta até o elevador. Além disso, vimos o Traband, o ineficiente carro utilizado naquele período, um modelo extremamente ultrapassado. Tudo muito disparatadamente antiquado em relação ao seu lado ocidental, mesmo décadas atrás. Uma visita que foi uma viagem à parte.

Conhecer o Portão de Brandemburgo e sua história foi emocionante. Esse monumento é o cartão postal do país. Nas imediações existem memoriais com fotos onde o vimos aprisionado e deteriorado entre dois muros durante a vigência dos países da "Cortina de ferro". Engana-se quem pensa que o Muro de Berlim era apenas um em toda a extensão: na verdade, eram dois, com um espaço entre eles, uma zona de morte impossível de escapar. Foi um choque conhecer os relatos sobre os que morreram tentando fugir.

A Ilha dos Museus é outro lugar bem típico de um país que tem memória e preserva a história. Há tanto para ver e aprender, que escolhemos os dois museus mais interessantes e possíveis de serem visitados, dentro do tempo disponível. Lá vimos a famosa escultura da rainha egípcia Nefertiti, superprotegida pelo seu significado, como um dos símbolos da antiguidade. Em contrapartida, uma construção moderna fascinante é a cúpula do Parlamento Alemão: totalmente transparente, com um cone de espelhos no centro e vistas para toda a cidade, à medida que se percorre um caminho em círculos.

Um lugar onde tiramos uma divertida foto foi o Checkpoint Charlie, antigo posto de fronteira entre as duas Alemanhas do passado. Hoje é mantido inclusive com os soldados, usando a farda da época e prontos para serem fotografados com os turistas bobos, os quais também podem colocar acessórios daquele período. Por outro lado, um passeio assustador foi a subida ao topo da Catedral de Berlim, pois foi como estar em um estreito labirinto cheio de portas e passagens estranhas. A parte boa foi a vista, mas ao descermos, saímos em uma espécie de cemitério com os caixões expostos, uma visão macabra. Fiquei ansiosa para sair dali.

Um lugar que não é para os fracos, chama-se Topografia do Terror. Ele guarda e exibe fotos do Holocausto e dos oficiais envolvidos no genocídio. O local era onde existia o prédio da polícia política do nazismo. Lá também se conhece o destino dos principais responsáveis pelo processo de extermínio dos judeus e de outras raças consideradas inferiores, além dos deficientes e opositores do regime. Tudo pior do que se possa imaginar. Uma demonstração do quanto a maldade humana não tem limites.

Perto dali foi possível avistar também uma extensa faixa do velho "muro da vergonha".  Do seu memorial é possível ver um trecho, cuja construção foi dupla e com suas torres de vigilância. Lá também se tem acesso a fotos das inúmeras barreiras com arames farpados, cães e soldados bem armados. Mais uma memória preservada para deixar claro ao que não se deve retornar. Um outro trecho que conhecemos e fotografamos foi o que serviu de tela para uma pintura icônica, a qual retrata um beijo entre o ex-presidente russo Leonid Brezhnev e Erich Honecker, o último chefe de Estado da Alemanha Oriental.

No entanto, Berlim vai além de seu passado e registros, pois é multicultural, democrática, e um lugar de gente de todas as partes do mundo. Uma cidade reinventada e reconstruída, após ter sido totalmente devastada pelas bombas da Segunda Guerra. Então, nos divertimos em seus bares, restaurantes, praças, avenidas e centros comerciais. Aproveitamos a sua culinária típica e as alegres cervejarias. Tomamos chopp de litro em enormes mesas compartilhadas nos Biergartens, e comemos deliciosas linguiças artesanais e o popular currywurst.

Como a memória do tempo da monarquia também é conservada, conhecemos o incrível Palácio de Potsdam, com seus gigantescos jardins, nosso último roteiro, onde cruzamos com um inesperado grupo de turistas brasileiros. Ao nos despedirmos da capital daquele país, partirmos realizados pelo banho de história e pelo espírito livre que hoje habita aquela cidade.

*DDR é a sigla que se refere à Deutsche Demokratische Republik (República Democrática Alemã) nome oficial do lado comunista do país.

30/09/2023

sexta-feira, 22 de setembro de 2023

De volta à terra dos inconfidentes

                                 Centro de Ouro Preto                                             Uma das minhas ruas favoritas
 

Após uma estada rica de bons momentos em Tiradentes e de volta à Estrada Real, Ouro Preto seria o nosso próximo destino. Passamos por Congonhas, onde visitamos as famosas estátuas dos Profetas, esculpidas por Aleijadinho. Fez toda a diferença pagar um guia para contar as histórias em torno daquelas obras e das outras em frente à Igreja, onde elas estão situadas.

Chegar ao berço dos inconfidentes foi um retorno a uma cidade de atmosfera única e sedutora. Ela nos encantou a ponto de voltarmos mais duas vezes, depois que a conhecemos, apesar dos milhares de quilômetros de distância.

Esse reencontro me deixou empolgada. Quando chegamos, estava tão admirada, que olhava para todos os lados, querendo lembrar de cada pedacinho por onde havíamos andado treze anos antes. Desejava que o meu filho também se encantasse, então fomos a todas as partes às quais havíamos ido anteriormente e fomos além. Fizemos um passeio a uma cachoeira de águas geladíssimas em Lavras Novas, um caminho com trechos assustadoramente estreitos, rezávamos para não surgir um carro na direção contrária.

Até mesmo um pão de queijo recheado o qual havíamos comido na nossa primeira passagem por lá, fizemos questão de saborear. Foi uma lembrança deliciosa que pudemos reviver, assim como a revisita à charmosa Mariana, via um bom passeio de Maria Fumaça. A feirinha de artesanato em pedra sabão ainda acontecia no mesmo lugar e passamos para nos readmirar com uma arte, símbolo daquela região. Como a gastronomia mineira é especial, em um típico e aconchegante barzinho insistiram para que conhecêssemos um pastel de massa de milho. Foi uma boa surpresa ante a nossa desconfiança e resistência ao desconhecido.

Para não fugir ao estilo da cidade, a pousada em que nos hospedamos ficava em uma de suas ladeiras. Um lugar agradável e caseiro, a ponto de um dia irmos tomar café, e o cozinheiro ter dado uma saída e nos deixado sós para pegar pratos e comidas. Foi inusitado. Ao lado, havia uma república, onde os moradores estavam em férias e só víamos dezenas de engradados de cerveja no quintal. Impressionados indagamos a respeito e soubemos que eram para consumo dos universitários que viviam lá. Eles haviam pintado uma frase na parede da casa, que traduzia todo o espírito do lugar: "É aqui nas penedias aterradoras, onde uivam os lobos famintos na famigerada Rua das Mercês que moram os intrépidos rapazes do reino de Baco". Simplesmente inesquecível.

Creio que nunca subi e desci tantas ladeiras como naqueles dias. Era verão e não havia garrafa de água que matasse a nossa sede. Nos esforçamos para ver tudo o que havia para nos causar admiração, fosse pela beleza ou pela história guardada em cada pedra usada em suas ruas e casas. Quando nos despedimos, a sensação era de ter sido tão bom quanto havíamos idealizado.

Como nossas viagens têm seus acontecimentos burlescos, ao retornarmos a BH e tentarmos nos dirigir à locadora para devolver o carro, ficamos rodando em uma rotatória sem achar a via de acesso ao local. Só conseguíamos rir da situação. E para fechar bem ao nosso estilo, quando estávamos tranquilos, aguardando a hora do embarque a fim de retornar para casa, o nosso voo chegou com atraso e fomos chamados para embarque imediato. A aeronave fez uma escala e praticamente só nós iríamos embarcar, então nos mandaram correr. Ofegantes entramos no avião, cuja porta foi logo fechada atrás de nós para, em seguida, partirmos. Essa foi a nossa primeira cena desse tipo. Não sabíamos, mas anos depois a coisa se repetiria.

22/09/2023

sexta-feira, 8 de setembro de 2023

Viagem à cidade cenográfica

 

Foto com o sósia de Milton em Tiradentes

    Nossa aventura mineira começou na Estrada Real. Nesse caminho, Cordisburgo entrou em nosso roteiro, porque era essencial fazer uma parada para conhecer a casa de Guimarães Rosa e um pouco mais da sua história. Mas ainda tivemos de bônus uma encenação de um trecho do livro Grande Sertão Veredas. Após esse prazeroso pit stop, seguimos para Tiradentes, nosso verdadeiro destino inicial. O estranho foi ante a demora e ânsia para chegar, acharmos que estávamos no caminho errado, visto que não havia GPS e nos localizávamos com um mapa do Guia 4 Rodas. Quando anoiteceu, fomos invadidos pela sensação do "não chega nunca".

    Enfim, nos certificamos de que a rota estava correta. Logo depois, nos vimos na entrada da cidade e, finalmente, na Pousada. Inesperadamente, aguardando-nos, havia apenas um adolescente, que foi chamar um adulto para nos receber. Não era um lugar ruim, mas o cheiro de mofo no quarto nos fez sair imediatamente, apesar do cansaço e da hora. Meu filho era alérgico e não poderíamos ficar.

    Decidimos ir ao centro procurar uma outra hospedagem. Para a nossa sorte, nos indicaram uma ótima pousada onde fomos bem recebidos. Sua localização central permitia irmos a vários lugares a pé e nos sentíamos em casa. Todos os dias nos ofereciam utensílios, caso quiséssemos tomar um vinho à noite na piscina. Como não havia um restaurante lá, faziam o melhor que podiam.

    Andar naquele sítio histórico tão bem preservado era nostálgico e estimulante. Nos sentíamos convidados a conhecer cada rua, igreja e monumento. Fotografamos vários recantos e entendemos o porquê de ser um lugar utilizado como locação para filmes e novelas de época. Faltou apenas o figurino para a sintonia ser total. Foi um lugar que nos cativou por nos remeter a um passado romântico, pelo acolhimento das pessoas e pela beleza.

    Dos acontecimentos pitorescos, tivemos a oportunidade de conhecer um sósia de Milton Nascimento, com o qual tiramos foto e depois nos divertimos enviando-a para os amigos como se fosse do artista. Lá foi onde comemos a melhor comida mineira. Andamos de charrete e em uma típica Maria Fumaça, que nos levou a São João Del Rey, uma bela cidade. Nesta passeamos e visitamos o Museu do Trem e o jazigo do ex-presidente Tancredo Neves e de sua respeitada esposa. Parece estranho, mas faz parte do turismo. Na volta, assistimos ao lado de outros turistas bobos, ao ritual do giro da locomotiva que puxa os vagões, mudada de direção manualmente.

    Nos arredores da cidade, tivemos boas surpresas, como o Museu do Automóvel e o artesanato do Vilarejo de Bichinho. Para não faltar nada, colocamos uma trilha no nosso roteiro, sendo uma das mais loucas que já fizemos, pois tivemos que andar muito tempo em uma fenda. O mais curioso foi a certeza que todos tinham de que eu iria cair e, no fim, a única pessoa a não escorregar e chegar suja de barro fui eu. Até o guia teve a sua queda triunfal. Ele também nos levou a uma caverna onde fomos apresentados a uma pequena e mortal aranha, um tanto quanto assustadora. Ao retornarmos, o grande desafio foi tirar aquele reboco amarelo dos nossos sapatos.

    Quando nos despedimos da cidade, deixamos o nosso coração lá e trouxemos saudades dos lugares, dos bons momentos e das pessoas que nos acolheram, como o dono de uma bodega próxima à nossa pousada. Ao passarmos por lá, praticamente todos os dias, logo tornou-se um conhecido que nos oferecia uma troca de experiências agradáveis entre degustações de cachaças e queijos mineiros, sabores os quais guardaremos para sempre em nosso paladar afetivo.


08/09/2023

sábado, 26 de agosto de 2023

Os curiosos elevadores das nossas viagens

No topo do Rockefeller com o Empire State ao fundo

Confesso que não fico confortável em elevadores. E sei que não sou a única afetada por este sentimento. Não foi sempre assim. Comecei a ficar com o pé atrás com esse meio de locomoção, depois do dia em que estava dentro de um e testemunhei um senhor entrar em pânico, porque a porta não abria.

Nesse caso, a falha não me assustou, mas sim a reação de quem se descontrolou. Isso deixou um registro negativo no meu subconsciente. No entanto, foram muitos anos até que essa lembrança começasse a fazer sombra. Descobri que a coisa era mais ameaçadora nas cabines com tamanhos reduzidos.

Tive de relevar os casos de elevadores minúsculos para não perder a simpatia por pousadas e hotéis, onde fiquei hospedada. A primeira experiência estranha nesse sentido foi com um instalado em um antigo hotel em São Francisco. A porta de madeira era inteira e abria lenta e pausadamente para a lateral. Sua estrutura era ultrapassada e eu sempre achava que a porta não iria conseguir se abrir. Parecia até que era movido à manivela.

Depois desse, me deparei com um modelo novo, mas muito apertado para três pessoas com malas. Então, era necessário, nesse caso, dividir as viagens. Porém, eis que no dia de ir embora, para que descêssemos de uma só vez, meu marido resolveu encaixar nós e a bagagem nessa caixa estreita. Porta fechada, botão apertado, e nada de o famigerado sair do lugar. Eu que já não estava nada confortável com a situação, logo comecei a ficar com um frio na espinha. E haja apertar botão! E o meu filho a rir, imaginando que estávamos presos. A graça era, exatamente, porque eu estava assustada. Humor de adolescente. Foi só quando achei que estava tudo perdido e pensei em começar a rezar, que o dito cujo resolveu descer e abriu a porta, cuspindo-nos para o hall de entrada. Em seguida, fui logo avisando: “Em outra dessa eu não entro”.

Nossa aventura seguinte foi em um cubículo em Roma. O prédio era antigo e não havia espaço para uma cabine normal. Então, inseriram praticamente uma caixa minúscula de madeira no meio da escada onde só cabia, com esforço, uma pessoa e uma mala média. Nesse eu evitava andar até sozinha, pois uma gaiola seria mais espaçosa. Curiosamente, encontramos quase uma réplica dele em Barcelona. A diferença era que nesse cabiam três pessoas bem juntinhas ou uma pessoa com duas malas. Eu também não andava sozinha aí. Só não era pior porque havia sempre uma pequena abertura com vidro de onde se via a troca de andares.

Entretanto, nem só de elevadores estranhos vive o viajante. Então, durante a subida no Rockfeller Center, em Nova York, tivemos a oportunidade de ir assistindo a imagens do universo projetadas no teto como se fossem em 3D. Foi literalmente uma viagem, pois era como se estivéssemos sendo lançados para fora da terra. Nem sentimos os 70 andares. Um outra experiência positiva foi o elevador panorâmico na Intendência de Montevideo, o qual nos leva a um mirante no topo do prédio de onde se tem uma das melhores vistas da cidade. Durante a subida já vamos tendo uma bela prévia da que nos espera.

Por outro lado, em um moderno ascensor de um hotel, em Miami, quase fiquei presa em razão dos embelezamentos da modernidade. Entrei sozinha para ir ao térreo pegar uma água mineral e, quando a porta fechou, ao olhar para o local dos botões, achei que a indicação dos andares era onde tocávamos para selecionar o número, enquanto enxerguei o botão como algo decorativo. Passei um tempo tentando acionar o que parecia uma tecla sem resultado, até começarmos a descer, porque alguém havia chamado no térreo. Ao chegar, peguei a água e fui entrar novamente para retornar ao quarto. Desta vez, tinha uma mãe americana com filhos pequenos, entrando junto comigo. Foi quando, constrangida, perguntei no meu inglês tupiniquim como selecionava o andar. A mãe olhou para mim e, com um tremendo ar de desprezo, apertou o botão, que eu havia achado que era só uma parte decorativa.

É claro que me achei uma tola. Entretanto, foi, exatamente, o que consegui pensar na hora, porque não vi quando ela escolheu o andar para onde iria, permanecendo sem saber como fazer isso também. Uma situação embaraçosa. Imaginei que ela ficou pensando se eu tinha algum problema de atraso mental ou era mesmo uma turista lerda de terceiro mundo.

É por essas e outras razões que não gosto, quando chego em prédios ultramodernos, onde não tem nem botão de andar no painel dos elevadores. A seleção já é feita no corredor e os elevadores param em andares previamente definidos. É muita sofisticação para uma função tão simples! Quase desnecessária.

 
26/08/2023