Ao
sair de Madrid para a região da Andaluzia, o caminho natural seria
Sevilha. Assim, desembarcamos de trem na terra mãe do flamenco. Como o
próximo transporte seria o ônibus, tratamos de nos situar na única
cidade grande da Europa, na qual utilizamos esse meio de locomoção. Foi
estranho, mas com a modernidade da Internet e a organização da cidade
foi fácil descobrir as linhas que nos levariam aos locais de interesse.
No
primeiro dia, já fomos conhecer o agitado bairro de Triana. Sua famosa
ponte sobre o rio Guadalquivir estava cheia de transeuntes, pelo
espírito de descontração e agito dos restaurantes, bares e barracas
abertos até a noite por ser um sábado. Após nos encantar com a beleza do
reflexo das luzes da cidade sobre o rio e tirar fotos do lugar, demos
uma volta pelas ruas próximas, jantamos e voltamos para o hotel,
empolgados com a primeira impressão.
Começamos nosso roteiro,
visitando a Catedral de Sevilha, inserida em um local de construções
medievais, onde é possível voltar no tempo também por meio de um passeio
em charmosas charretes. Lá entramos, pela primeira vez, em uma arena de
touradas. Seria a praça de touros Real Maestranza, a mais antiga
e de maior tradição da Espanha. Não que concorde com a prática do
tratamento dado aos touros, mas não deixa de ser um lugar inexistente em
nossa cultura e cercado de histórias que inspiraram filmes, músicas e
óperas, entre outras demonstrações culturais. Algo tão novo, que não
havíamos visto em outros países e enxergamos como uma espécie de Coliseu
para touradas. Como fica perto do rio, fizemos uma agradável caminhada
pela orla, onde nos empolgamos com uma réplica de uma nau do tempo dos
descobrimentos e vimos a Torre del Oro. Um lugar inspirador.
Após
almoçarmos uma deliciosa paella com vinho da casa, no centro da cidade,
fomos conhecer a Plaza de España, no Parque Maria Luisa. Não havíamos
imaginado a beleza e o quão agradável poderia ser. Assim que se abriu
diante dos nossos olhos aquele espaço, envolto por uma grandiosa
construção semicircular em estilo mouro, foi de tirar o fôlego. Ela
representa os quatro antigos reinos da Espanha e é contornada por um
fosso de águas esverdeadas com inúmeras pontes que dão acesso aos
edifícios. Ao centro existe uma fonte e, nas paredes da Plaza,
pisos em azulejo com pinturas coloridas, as quais representam as
diferentes províncias da Espanha. Em um de seus terraços, moças dançam
flamenco em um animado espetáculo repleto de espectadores, os quais ao
final deixam moedas em retribuição à pequena apresentação.
Não
sabíamos, mas havia muito mais para nos encantar no parque cheio de
belos animaizinhos, lagos, e uma pequena cachoeira. Ao sair de lá, ainda
tivemos uma boa surpresa ao nos deparar com a visão do lindo jardim da Plaza de América todo iluminado, com um lago à frente do museu de Artes y Costumbres, uma construção de uma fachada caprichosamente criada para impressionar.
Havia,
ainda, um monumento repleto de belezas para conhecermos. Era o Real
Alcázar, um extenso palácio composto por edifícios de diferentes épocas e
impressionantes jardins cheios de estilo. A fortificação original foi
construída sobre uma antiga edificação romana, tomada pelos povos
germânicos e bárbaros. Posteriormente, foi conquistada pelos muçulmanos
e, por fim, passou a ser uma construção cristã, mas com grande parte da
sua estrutura conhecida como é hoje, criada pelo longo reinado dos
mouros, antes de pertencer aos castelhanos. É impressionante a
arquitetura de riqueza e pompa, predominantemente, no estilo árabe, com
seus arcos em formato de ferradura, tetos e paredes com pintura moura.
Após
essa visita cheia de detalhes, aproveitamos para passear pelo entorno e
almoçamos uma deliciosa massa com uma jarra de sangria. Depois de bater
perna pelas antigas ruas do centro, foi hora de assistirmos a uma
apresentação de flamenco com bailarinos profissionais. Como berço dessa
dança e música, lá seria o lugar ideal para essa programação. É um
espetáculo encantador acompanhado por instrumentos de cordas e percussão
numa mistura de violão, palmas, sapateado e dança. Hoje, como símbolo
da cultura espanhola e patrimônio imaterial da humanidade, remontam à
mistura de diversas culturas como a árabe, judaica e cigana.
Cidade
cheia de lugares surpreendentes, Sevilha possui uma construção única
denominada Metropol Parasol e conhecida como Cogumelos da Encarnação, à
qual fomos a pé pelas ruas do centro antigo. Sob essa que é a maior
estrutura de madeira do mundo, também conhecemos uma área de escavações
arqueológicas romanas e árabes, da época em que Roma dominava parte das
terras espanholas.
Sendo nosso último dia na cidade, não podíamos
ir sem comer no Mercado de Triana. Matamos a nossa vontade,
atravessamos a ponte de mesmo nome e fomos fazer o último passeio às
margens do Guadalquivir. Nessa hora, tomei um dos maiores sustos da
vida. Meu filho foi tirar uma foto nos degraus que dão acesso às águas,
escorregou e caiu no rio. Não vi, mas ouvi a zoada da queda. Em
milésimos de segundos meu cérebro processou a cena e me desesperei. Mas
antes que eu morresse, ele saiu do rio, molhado da cintura para baixo e
conseguiu salvar a máquina fotográfica. Era inverno e a água estava
gelada. O jeito foi retornarmos ao hotel para ele se trocar. Passado
aquele stress, saímos para fazermos um tour de barco pelo rio
Guadalquivir, a fim de vermos a cidade de um outro ângulo.
Para a
nossa despedida, fomos a um bar agradável e descontraído no centro
antigo e bem perto do hotel. Ao chegarmos, tirei o meu chapéu favorito e
o coloquei sobre a mesa. Um ato sem volta. Lá comi a salada russa mais
gostosa até ali, um típico tira-gosto espanhol. Foi uma alegre
despedida. Saímos do bar já na hora de seu fechamento e, na chegada ao
hotel, percebi ter deixado o gorro. Não daria para retornar, porque o
bar fecharia e, no dia seguinte, cedo partiríamos para Barcelona. Fim da
nossa estada e, literalmente, tirei o chapéu para Sevilha e lá o
deixei.

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