Quando decidimos ir para Bariloche em férias, a segunda preocupação depois do hotel, seria o carro a ser locado, um item imprescindível para os nossos passeios. Para tanto, tivemos o cuidado de escolher uma boa locadora, cujos serviços já havíamos utilizado em outras viagens, sem problemas.
Ao posar em nosso destino, nos primeiros dias, andamos a pé pela cidade e fizemos passeios pagos. Depois disso, o meu marido foi retirar o carro na locadora a fim de viabilizar nossas programações seguintes. Ao chegar lá, recebeu o veículo com as portas abertas e, aparentemente, em perfeito estado, conferindo-o superficialmente, porque, dado o padrão da empresa, a desconfiança não cabia naquele momento. O aspecto de limpeza e o brilho davam a impressão de uma máquina novinha ou muito bem cuidada. Ledo engano: uma constatação que tivemos tardiamente.
A ideia era ele apanhar nosso filho e eu, no hotel e irmos conhecer um cerro na própria cidade. Foi o que fizemos. Estacionamos o veículo, travamos manualmente as portas, e subimos a montanha. Na volta, quando fomos entrar no carro, ao abrir inicialmente a porta do passageiro com a chave, percebemos que a fechadura não funcionava. Abrimos, então, a porta do motorista e destravamos a outra por dentro. Para evitar equívocos, voltamos à loja para mostrar o defeito e solicitar algum tipo de providência. Foi aí que nossos problemas começaram.
Inesperadamente, fomos destratados na loja e acusados de ter quebrado a fechadura. Decepção. Indignação. Essas foram as palavras daquele momento. Foi difícil crer no que estava acontecendo. Ficamos inicialmente revoltados e, em seguida, desnorteados. Depois, no entanto, resilientes. Decidimos que não permitiríamos que aquele incidente prejudicasse a nossa viagem.
Sem conserto, continuamos nosso roteiro. Enquanto andávamos por perto da cidade, tudo seguia como esperado. Porém, quando pegamos uma autoestrada, descobrimos que não poderíamos ultrapassar os 80km/h porque o carro estremecia todo, uma reação nada agradável e limitante. Mas isso não era tudo, pois ao percorrermos uma estrada de areia vulcânica, descobrimos que ele produzia um barulho que mais parecia com uma bateria de escola de samba. A impressão era de estar a ponto de se desmanchar, algo como uma folga generalizada das peças.
Mesmo assim, seguimos nosso roteiro e, após alguns dias, aportamos em uma cidade próxima. De lá, faríamos outro passeio por uma estrada de terra. Corajosamente, seguimos por entre a poeira escura e os pedregulhos para conhecer e fotografar belos lagos de águas transparentes, sempre entre sacolejos, batedeiras e outros detalhes. No dia seguinte, quando nos preparávamos para sair, vimos o pneu murcho. Normal. Havia furado na volta do passeio e nem percebemos. Mas o que não seria normal foi o seu desdobramento. Ao utilizarmos o macaco hidráulico para fazer a troca da roda, este não suportou o peso e o carro pendeu para um lado, encostando na coluna de madeira que sustentava a coberta da garagem. Quase ocorreu um grande acidente. Só com a ajuda de algumas pessoas foi possível manter o carro suspenso. Como se não bastasse, quando estávamos na borracharia para recuperar o pneu, olhei atentamente o para-brisa e percebi que surgira uma pequena rachadura. Talvez decorrente de uma pedra que nos acertara no último passeio. Mais um detalhe para sermos cobrados.
É claro que cancelamos outros passeios, após reavaliarmos o estado geral do carro. Para um roteiro como o nosso, ele não se encaixava, mas também não havia outro disponível. Entretanto, para a etapa final de nossa viagem, planejáramos conhecer uma cidade, a qual possuía um parque com uma bela floresta, um lago impressionante e lugares para fazer piquenique. Estávamos empolgados até descobrirmos que a estrada seria mais longa que o esperado e um trecho seria mais uma vez por terra vulcânica. O clima ficou tenso, quando lembramos que o carro seria mais uma pedra no caminho que uma ajuda. De forma imprudente, na dúvida, optamos por ir.
Até hoje não sei se valeu a pena. O caminho foi assustador. Atravessamos uma extensa reta que mais parecia um deserto. O temor de o carro quebrar era um fantasma que nos perseguia. Só de imaginar isso acontecer no meio daquele ermo, tremíamos. A longa distância se esticava à medida que não podíamos aumentar a velocidade. A noite se aproximava e as batidas dentro do carro se acentuavam. Mas o problema se intensificou, quando entramos no trecho de rípio, um tipo de cascalho. Ansiávamos pela chegada. Enfim, conseguimos concluir aquela jornada: nós e o “famigerado”. Exaustos pela tensão, relaxamos um pouco passeando pela cidade, e após uma boa noite de sono em um hotel local.
No dia seguinte, o objetivo era entrar no parque, fazer uma caminhada, um piquenique, e de lá já pegar a estrada de volta, a qual atravessava a reserva florestal. Os ventos, no entanto, não estavam favoráveis e vários impedimentos no próprio local nos levaram a fazer apenas a sua travessia. Novamente em uma estrada de rípio e mais uma vez com emoção. E haja coração! Lá fomos nós e o barulhento sedan. De vez em quando parávamos para fotografar as paisagens e renovar os ânimos. O grande alívio foi atingir a pista de asfalto, após um extenso percurso, e nos localizar no GPS. Antes éramos uma família “perdida no espaço”; como no filme. A partir daquele ponto, identificamos um lugar para comer e o grande objetivo de nossas vidas era nos livrarmos do carro e seus entraves.
Chegado o dia de retornar, o plano era devolver o automóvel em uma filial da locadora, que existia no aeroporto. Preparados para sermos cobrados pela fechadura e pelo vidro rachado, entregamos a chave do veículo ao vistoriador. Mas nada como entregar um carro sujo, e assim como o recebemos, ou seja, de porta aberta e os vidros baixados. Como nós, o funcionário não se apercebeu dos problemas e assim a locadora recebeu de volta o que nos entregou.
Todo o estresse valeu uma reclamação à empresa com a qual havíamos feito o contrato de locação, pois, ao final, nos deu um bônus substancial para uso futuro. Algo que usufruímos na viagem seguinte. Ficamos imaginando que a franquia, a qual se portou de maneira vergonhosa, deve ter recebido um bom puxão de orelha do franqueador. E como costuma-se dizer “Tudo tem seu lado positivo”. É certo que o lado ruim foi grande. Por outro lado, não podemos esquecer que o malfadado carro nos levou a lugares onde fizemos registros de paisagens de tirar o fôlego e, afinal, não nos deixou totalmente na mão.
22/04/2023
