quinta-feira, 11 de maio de 2023

O destino é andar


Foto: Elizabeth Villalta

Quando estávamos preparando o roteiro para os nossos dias em Washington, o entusiasmo cresceu ao descobrimos o complexo de interessantes museus situados no National Mall, um local no Centro, onde fica o famoso espelho d’água e o gigante obelisco em homenagem à cidade que, depois da Casa Branca, é o símbolo daquele lugar. Não estávamos errados quanto a nossa empolgação, entretanto só quando chegamos lá foi que nos conscientizamos do tamanho daquele lugar e da quantidade de museus. Precisaríamos de vários dias para percorrê-los e, ao final, ficaríamos cansados e já não seria possível assimilar os conhecimentos adquiridos. Além disso, havia os monumentos no entorno, como a famosa estátua no Lincoln Memorial, a própria Casa Branca e o Capitólio. Impossível ver tudo. E não vimos.

No primeiro dia, priorizamos os que nos despertavam mais interesse: o Museu Judaico, o Smithsonian aeroespacial e a visita a alguns monumentos. Parece pouco. Porém, passamos horas em cada um e andamos quilômetros a pé para chegar aos memoriais. Sem uma alternativa, concluímos que era como andar na Esplanada em Brasília: à distância tudo parece próximo, mas quando se começa a andar para chegar aos prédios dos três poderes, estes parecem inalcançáveis. Foi na capital americana que me descobri portadora de uma neuropatia periférica. Meus pés simplesmente

sucumbiram ao esforço de andar naquele complexo e, no terceiro dia, fui obrigada a parar e ficar deitada sem usá-los a fim de que se recuperassem. Desistimos de conhecer o Capitólio porque, em obras, não compensaria a caminhada até lá. Cada lugar agora do National Mall era selecionado por nós de acordo com o tanto que teríamos que andar para chegar lá. Hoje, pensando bem, uma saída teria sido alugar bicicletas, pois me sentia patética andando e parando a toda hora como se tivesse pelo menos vinte anos a mais.

Após essa experiência, decidimos conhecer outras partes da cidade, algo suportável para meus frágeis pés. Mas a passagem por Washington, além de nos marcar por essa inusitada dificuldade, se tornou inesquecível pelo perrengue da volta. Não sabíamos, mas nosso retorno para o Brasil seria com mais emoção que o esperado. Se eu já estava cabreira de ter que voltar por Baltimore, a 55km de onde estávamos, para depois pegar um voo até Miami, e de lá mais três até chegar em casa, o que pensar após ficar dentro de um avião por 5 horas em solo? Essa é quase uma outra história: chegar ao aeroporto não foi um problema. Meu primo que morava em Washington e nos hospedou, nos levou até lá.

A treta verdadeira foi no terminal aéreo de Miami, encarar dois atrasos do mesmo voo. Primeiro a demora para o embarque com a justificativa do aguardo de passageiros vindos de uma conexão. Em seguida, quando entramos no avião, após duas horas parado na pista e pressões dos passageiros, veio o aviso de que estavam fazendo uma manutenção na aeronave. Como já deveríamos estar no ar e recebendo o jantar, estávamos todos famintos. Sendo proibido servir em terra, solicitamos nossa saída para comprar uma refeição. Depois de muita negociação, permitiram. Porém, a demora fez com que chegasse a hora do fechamento das lanchonetes e isso causou uma corrida por parte dos passageiros até a sala de embarque. Por sorte, ainda consegui comprar lanches para meu marido, meu filho e para mim. Após 5 insanas horas, partimos para São Paulo. Mas o espantoso de tudo isso foi que alguns passageiros da primeira classe, confortavelmente instalados, se queixaram de nosso movimento de reclamar da situação, e de sair e entrar no avião para comermos, o que nos obrigava a passar por eles. Isso me fez confirmar a ideia de que a ilusão de superioridade da nossa elite é algo a ser estudado.

E se isso tudo já parecia esdrúxulo, quando pousamos em Guarulhos, tínhamos um voo que havíamos comprado separado e chegamos no encerramento do embarque. Após pegarmos nossa bagagem, corremos até o guichê da companhia aérea e de lá enviaram uma mensagem por rádio, avisando para nos esperarem. A recepcionista nos disse para correr, e quando íamos entrar na sanfona, avisaram que a nossa bagagem havia excedido o peso. Nessa hora, a tensão foi às alturas. A saída foi solicitarem autorização para embarcarmos apesar disso, e a orientação de corrermos. E foi assim que entramos no avião arfando e a porta sendo fechada atrás de nós. Enquanto os passageiros nos olhavam curiosos, eu só queria ir para o meu assento respirar e me preparar para uma segunda longa jornada de mais 2 voos: São Paulo – Salvador e Salvador – Recife.

Hoje olho para trás e não consigo pensar como achamos que aquilo daria certo. A grande lição foi: nunca compre passagens com localizadores diferentes, pois se um voo atrasar e você perder o(s) seguinte(s), a responsabilidade é toda sua. Quanto à outra empresa que nos deixou 5 horas em solo dentro do avião, descobrimos que, misteriosamente, esse tipo de procedimento era uma prática constante no aeroporto de Miami, lugar onde mandava e era seu hub. Lá os brasileiros, sem voz, volta e meia eram submetidos a isso. Com essa, o outro aprendizado foi: never more viajar por essa companhia. Desconfio que, fosse a pé ou por ar, nosso destino nessa viagem certamente foi andar.

11/05/2023