sábado, 30 de setembro de 2023

Os diversos muros de uma cidade

 
                                                            Cúpula do Parlamento                                    Com o Traband

 

Chegar a Tegel, o pequeno aeroporto de Berlim, não nos daria a dimensão daquela cidade. Foi inesperado nos deparar com aquela estrutura e, na sala de embarque, encontrar uma moradora, conterrânea do meu marido.

Os roteiros ligados ao tema da Segunda Guerra Mundial (assunto fascinante) e o muro de Berlin nos empolgavam. Começamos pelo lugar onde ficam a famosa torre de TV, um dos símbolos da cidade, e o Relógio Mundial, construção genial que indica a hora de 146 cidades.

Quanto passado em uma metrópole que já foi dividida em duas! Ficamos impressionados com o museu DDR*, o qual guarda uma lembrança da antiga vida na Alemanha Oriental, Um lugar onde foi criada uma réplica de um apartamento totalmente decorado e dividido como na época, desde a porta até o elevador. Além disso, vimos o Traband, o ineficiente carro utilizado naquele período, um modelo extremamente ultrapassado. Tudo muito disparatadamente antiquado em relação ao seu lado ocidental, mesmo décadas atrás. Uma visita que foi uma viagem à parte.

Conhecer o Portão de Brandemburgo e sua história foi emocionante. Esse monumento é o cartão postal do país. Nas imediações existem memoriais com fotos onde o vimos aprisionado e deteriorado entre dois muros durante a vigência dos países da "Cortina de ferro". Engana-se quem pensa que o Muro de Berlim era apenas um em toda a extensão: na verdade, eram dois, com um espaço entre eles, uma zona de morte impossível de escapar. Foi um choque conhecer os relatos sobre os que morreram tentando fugir.

A Ilha dos Museus é outro lugar bem típico de um país que tem memória e preserva a história. Há tanto para ver e aprender, que escolhemos os dois museus mais interessantes e possíveis de serem visitados, dentro do tempo disponível. Lá vimos a famosa escultura da rainha egípcia Nefertiti, superprotegida pelo seu significado, como um dos símbolos da antiguidade. Em contrapartida, uma construção moderna fascinante é a cúpula do Parlamento Alemão: totalmente transparente, com um cone de espelhos no centro e vistas para toda a cidade, à medida que se percorre um caminho em círculos.

Um lugar onde tiramos uma divertida foto foi o Checkpoint Charlie, antigo posto de fronteira entre as duas Alemanhas do passado. Hoje é mantido inclusive com os soldados, usando a farda da época e prontos para serem fotografados com os turistas bobos, os quais também podem colocar acessórios daquele período. Por outro lado, um passeio assustador foi a subida ao topo da Catedral de Berlim, pois foi como estar em um estreito labirinto cheio de portas e passagens estranhas. A parte boa foi a vista, mas ao descermos, saímos em uma espécie de cemitério com os caixões expostos, uma visão macabra. Fiquei ansiosa para sair dali.

Um lugar que não é para os fracos, chama-se Topografia do Terror. Ele guarda e exibe fotos do Holocausto e dos oficiais envolvidos no genocídio. O local era onde existia o prédio da polícia política do nazismo. Lá também se conhece o destino dos principais responsáveis pelo processo de extermínio dos judeus e de outras raças consideradas inferiores, além dos deficientes e opositores do regime. Tudo pior do que se possa imaginar. Uma demonstração do quanto a maldade humana não tem limites.

Perto dali foi possível avistar também uma extensa faixa do velho "muro da vergonha".  Do seu memorial é possível ver um trecho, cuja construção foi dupla e com suas torres de vigilância. Lá também se tem acesso a fotos das inúmeras barreiras com arames farpados, cães e soldados bem armados. Mais uma memória preservada para deixar claro ao que não se deve retornar. Um outro trecho que conhecemos e fotografamos foi o que serviu de tela para uma pintura icônica, a qual retrata um beijo entre o ex-presidente russo Leonid Brezhnev e Erich Honecker, o último chefe de Estado da Alemanha Oriental.

No entanto, Berlim vai além de seu passado e registros, pois é multicultural, democrática, e um lugar de gente de todas as partes do mundo. Uma cidade reinventada e reconstruída, após ter sido totalmente devastada pelas bombas da Segunda Guerra. Então, nos divertimos em seus bares, restaurantes, praças, avenidas e centros comerciais. Aproveitamos a sua culinária típica e as alegres cervejarias. Tomamos chopp de litro em enormes mesas compartilhadas nos Biergartens, e comemos deliciosas linguiças artesanais e o popular currywurst.

Como a memória do tempo da monarquia também é conservada, conhecemos o incrível Palácio de Potsdam, com seus gigantescos jardins, nosso último roteiro, onde cruzamos com um inesperado grupo de turistas brasileiros. Ao nos despedirmos da capital daquele país, partirmos realizados pelo banho de história e pelo espírito livre que hoje habita aquela cidade.

*DDR é a sigla que se refere à Deutsche Demokratische Republik (República Democrática Alemã) nome oficial do lado comunista do país.

30/09/2023