Quando São Francisco foi introduzida em nosso roteiro, após partirmos de Los Angeles, dois lugares no meio desse caminho saltaram aos olhos e se tornaram obrigatórios: Solvang, uma cidade de origem dinamarquesa, e a Big Sur, uma estrada de beleza exuberante, que cruza uma região entre a floresta e o mar, excelente opção para chegar ao nosso destino. E assim o fizemos. Passamos um dia, conhecendo a cidadezinha de arquitetura europeia, com lojas cheias de enfeites natalinos, independente da época do ano. No dia seguinte cedo, partimos para aproveitar os mirantes e outros pontos de observação de uma das estradas mais impressionantes do planeta. Um trajeto para não esquecer.
Ao sair de uma estrada de sonhos e adentrar de carro em São Francisco, nosso destino final, o impacto foi imediato. Trânsito agitado, motoristas que buzinavam ou mesmo reclamavam ao volante. Diferente de outras cidades americanas por onde havíamos passado. Fomos aconselhados a não dirigir por lá. Hora de entregarmos o veículo, o qual havíamos alugado. E só foi começar a andar a pé para eu levar uma buzinada ao me preparar para atravessa uma rua! Não sabia qual o comportamento esperado para o pedestre ali, mas logo aprendi depois desse episódio.
Nos surpreendemos com aquele lugar, pois logo na chegada, a temperatura era mais baixa que o esperado, considerando estarmos no verão californiano. Além disso, existia uma espécie de névoa em forma de anel, que ficava contornando a cidade. De sorte que, por precaução, havia levado alguns casacos. O vento, vindo do mar, que esfriava a região, era um agravante que obrigava os bares em Fisherman’s Wharf, um bairro de São Franscisco, onde funcionava o antigo porto, a colocar aquecedores externos para que os clientes suportassem ficar nos terraços. Um local agradável que passou a fazer parte dos nossos fins de noite, durante nossa estadia.
Como estávamos ali para viver as experiências mais típicas, atravessamos a extensa e icônica ponte Golden Gate sob um vento que nos fazia acelerar os passos, ansiando por chegar ao outro lado. Mesmo assim, ainda nos divertimos com a imagem da fileira de amishes, que passaram por nós. Jamais esperávamos ver pessoas dessa reclusa comunidade nas ruas de um lugar nada ortodoxo. Outro passeio clássico que fizemos foi a travessia de ferry até a Ilha de Alcatraz, para conhecer a antiga prisão de mesmo nome e suas histórias. Dentre elas, a da fuga impossível de alguns detentos que, segundo as mais recentes investigações, há indícios de que vieram para o Brasil (zero surpresa). E como não poderia deixar de ser, subimos e descemos ladeiras nos antigos e famosos bondes. Para não perder a aventura, meu filho fez questão de se segurar nas barras da parte externa do vagão, como vemos nos filmes gravados naquele cenário. Quando ele chegou ao seu ponto de retorno, nós e mais uma dezena de turistas com cara de bobos ficamos assistindo ao “balé da meia volta volver” do vagão.
Uma característica do lugar eram as enormes lojas de CDs e Lps para todos os gostos. Ainda estávamos na fase de caça aos CDs raros, então foi divertido fazer um tour por algumas dessas lojas, dentre elas a antológica Amoeba, e sair felizes com o que garimpamos.
O espírito livre representado pelos ultrapassados hippies remanescentes dos anos 70, ainda vistos por lá, e pelas bandeiras das cores do arco-íris também são a marca de São Francisco, sendo estas últimas comumente encontradas no bairro de Castro. Estava em nosso roteiro conferir suas ruas alegres e cheias de cor. Cores também foi o que encontramos na Lombard Street, uma rua florida construída em zigue-zague, conhecida pelo seu formato curioso e pela beleza de seus enormes jardins. Coloridos também eram os MMs que comprei para o meu filho em uma linda caixa de acrílico, a qual foi derrubada por ele no hall do hotel em que estávamos hospedados, deixando centenas de bolinhas de todas as cores em cada recantodaquele espaço. Desconfio que até hoje os chocolates são encontrados nas brechas da enorme sala cheia de móveis antigos com lugares para escondê-las.
A hora de conhecer uma das pérolas da culinária local foi também o momento de darmos boas risadas. Sentados no terraço de um prédio, no tradicional restaurante Cheescake Facyory, comemos um delicioso almoço e, na sequência, pedimos um cheesecake, a sobremesa mais conhecida da casa. Prevenidos, pedimos uma fatia e três garfos para dividirmos a generosa porção servida. O mesmo não aconteceu na mesa vizinha, onde havia uma família de uma mãe e três filhas, e cada uma pediu uma fatia. Quando o pedido chegou e elas viram o tamanho da sobremesa, tiveram uma crise de riso, e olharam para nós com cara de "como-conseguiremos-comer-tudo-isso?". Ao entendermos o que estava acontecendo, também, não pudemos conter as risadas. É por essas e outras que sempre vamos devagar, quando não sabemos o tamanho do prato.
A volta daquela cidade tão distante da nossa casa custaria dois dias de viagem. Nem a tecnologia facilitou o nosso retorno. Precisei me agarrar às boas lembranças do que conhecemos para conseguir passar duas noites entre voos e aeroportos. Fomos felizes naquela viagem? Sim. Mas não pretendo repetir outro traslado nesses moldes. Não tenho mais esse fôlego. Ufa!
23/06/2023
