quinta-feira, 9 de fevereiro de 2023

Lua de mel postergada

Serenata na mesa - Bar em BH
 

Primeiro ano de casada e finalmente é chegada a lua de mel, algo não conciliável na época do casamento. De acordo com o tempo que eu ainda precisava para tirar férias no trabalho, não havia outro modo. Conformismo à parte, seria uma oportunidade de passarmos o Natal com o lado da família que vivia no Rio de Janeiro, um presente para ambas as partes.

Dessa vez fomos de avião. Apesar de ser a fase das viagens de ônibus, a distância não estimulava essas investidas. E foi assim que partimos a bordo da falecida Trans Brasil até Confins, Minas Gerais. Logo na chegada, tivemos duas coincidências divertidas: uma foi ter Elza Soares em nosso voo. Ao sairmos para almoçar com um amigo que tinha ido nos buscar, encontramos a cantora no Restaurante do Mineirão; assim como nós, ela havia ido direto para lá, porém, com o objetivo de conhecer o palco onde faria um show. A outra foi que, durante o desembarque, vimos através da janela de vidro do aeroporto, os aviões estacionados e, perto deles, os equipamentos do Skank sendo levados a um voo para Recife, de onde havíamos partido e onde o grupo faria uma apresentação.

O período em Belo Horizonte foi empolgante. Novidades não faltaram: bar 24 horas, cerveja alternada com cachaça, carne flambada nessa bebida, bar com forno à lenha, como parte da decoração, inesperada serenata na mesa e até restaurante com uma árvore bem no centro. Para finalizar, um passeio à Lagoa Santa, onde percorreríamos a Gruta da Lapinha, famosa pelas formações em seu interior e a primeira caverna da minha vida.

De lá partimos para Outro Preto, dessa vez, de ônibus. O encantamento com a cidade foi tal que voltamos mais duas vezes anos depois. Ficamos em uma pousada que era um antigo casarão, cujo lugar onde tomávamos café parecia uma taverna. À noite, o frio nos convidava para um vinho e ríamos à toa nos acolhedores bares da cidade. Eles nos davam quebra-cabeças de metal para desvendar o segredo e, na ocasião, descobri que sou boa nisso, depois de umas taças de vinho. Até comprei um, depois, só para testar. Dessa passagem, saí com a bagagem pesada de artesanatos em pedra sabão, que tenho até hoje. E para não esquecer: uma divertida foto, imitando Gene Kelly, no filme Cantando na chuva.

A próxima parada seria Curitiba. Ficamos na casa de um casal de amigos, artistas do Teatro de Bonecos. Fizemos junto com eles e as filhas um lindo passeio de trem pela Serra do Mar até Morretes. Voltamos pela Estrada da Graciosa, um caminho do tempo do império, com belas paradas para piqueniques ou apenas contemplação. Visitamos parques, cheios de beleza e história na capital paranaense, conhecemos suas vinícolas, comemos um rodízio de tudo e o famoso barreado. Nós nos admiramos com a decoração natalina e ouvimos a cantata anual de Natal do coral de crianças da cidade, nas janelas de um antigo prédio histórico. E para não fugir ao inusitado, quando fomos conhecer a Ópera de Arame, não conseguimos entrar na Pedreira Paulo Leminski ao lado, um famoso lugar de shows, porque Xuxa chegaria para um evento. Nunca pensei que ela prejudicaria um passeio meu.

O passo seguinte seria retornar ao Rio de Janeiro para comemorarmos o Natal, numa divertida festa na casa da tia. Logo depois, fomos passar um dia na histórica Petrópolis e seguimos para a base aérea de Santa Cruz, onde morava um primo que havia nos acompanhado nesse último passeio. Para nos refrescar, tomamos um banho de piscina no Clube da base e, logo após, fomos conhecer um hangar, onde no passado era guardado um Zepelim.

E porque coisas impensáveis acontecem, apareceram estranhos caroços pelo meu corpo e uma amidalite repentina. Precisei ser atendida pelo médico local, o qual diagnosticou uma absurda e inesperada catapora. A primeira recomendação foi não usar a piscina. Tarde demais! E a outra foi não entrar em um avião, prevenções para evitar proliferar a doença. Logo imaginei que já contaminara o contingente da Vila Militar, depois de ter usado suas dependências. Com aquela notícia, passei a sucumbir e meu estado piorou rapidamente. Voltei para a casa da tia e, em dois dias, havia erupções em cada centímetro da pele; elas me faziam chorar sempre que me olhava no espelho.

Estávamos na última semana do ano e, no penúltimo dia, pegaríamos o voo de volta. Contrariando ordens médicas, me preparei para o retorno. Vesti uma roupa que cobrisse todo o corpo, fiz uma pesada maquiagem para disfarçar as bolhas da face, deixei o cabelo cobrir parte do rosto e fomos para o aeroporto. Lá, me sentei no lugar mais discreto que encontrei, enquanto meu marido fazia o check-in e despachava as bagagens. Entrei no avião como quem, de fato, escondia algo, calada, cabisbaixa e tentando inutilmente manter distância das pessoas. Ainda bem que era um voo doméstico, caso contrário, teria sido interpelada pelo comportamento suspeito. Finalmente, quando chegamos em casa, era dia de romper ano. Para não contaminar ninguém, passamos essa data sozinhos. Dentro de um contexto inimaginável, estava afastada do trabalho até me curar totalmente e marcada pela doença. De sorte que o médico me passou um tratamento que eliminou as manchas, encerrando as sequelas daquele vírus totalmente fora de contexto e ainda em uma postergada lua de mel.

09/02/2023

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