sábado, 18 de março de 2023

A praia dos sonhos

Pôr do sol no mar visto da duna

Um dia, vi na TV a praia de Jericoacoara sendo eleita em um programa produzido por uma emissora estrangeira, como uma das cinco mais belas do planeta. Naquela hora, pensei : "Eu estive lá e deve ser verdade". Não dá para negar, é diferente da maioria, e a magia do pôr do sol no mar, fruto de sua geografia, é a cereja do bolo de um cenário paradisíaco.

A aventura começou quando meu marido e eu deixamos Olinda, em Pernambuco, e chegamos em Canoa Quebrada, no Ceará, em um trajeto de carro. Nessa praia, ficamos em uma pousada onde fomos recebidos pelo dono, um imigrante suíço, com um divertido sotaque que nunca esquecemos. Lá descansamos e conhecemos as paisagens icônicas desse lugar e o tradicional agito das noites locais. Depois de dois dias, nos despedimos do nosso anfitrião que nos contou curiosas histórias. Dentre elas, narrou a sua tentativa de voltar para seu país de origem após dez anos no Brasil e receber a recomendação de voltar para o lugar de onde havia saído. A alegação foi de que após tantos anos fora, já não seria útil para a sua nação. E assim ele o fez.

Com mais essa vivência na bagagem seguimos para Jijoca, cidade onde deveríamos deixar nosso carro e continuar a viagem em um veículo com tração nas quatro rodas para transpor as dunas e chegar ao nosso destino. Pagamos a um condutor que levava turistas e conhecia o caminho por entre aquele mar de areia e suas armadilhas. Houve um momento em quem paramos para ajudar um outro condutor que havia atolado sua caminhonete em um trecho. Aquele trajeto não era para iniciantes. Era difícil nos mantermos nos assentos. Meu corpo dava saltos tão grandes que a cabeça batia no teto da cabine em um sobe e desce de uma estrada extremamente ondulante.

No entanto, aquele meio justificava o fim. Quando surgiu diante de nós uma praia de águas límpidas, com pequenas lagoas e coqueiros entre as dunas e uma cidadezinha que, na época, era praticamente um vilarejo, ficamos encantados. Fomos bem recebidos na pousada e aproveitamos o resto do dia para começar a conhecer a pequena vila e seu litoral.

No dia seguinte, fomos fazer um passeio na Lagoa Azul, um lugar onde a sua cor fazia jus ao nome. Havia várias redes armadas dentro de suas águas doces para proporcionar ao turista a profunda sensação do não fazer nada ao se balançar ao sabor do vento e ao relaxar sob um afago molhado . Ali o tempo não existia ou não fazia sentido. Voltamos quando foi preciso pegar o buggy que nos levaria de volta. Esse tinha horário definido para sair. Algo providencial, porque era quase uma lei no final da tarde, ir para a duna onde todos se sentavam para assistir ao pôr do sol no mar. No primeiro dia em que fizemos isso, foi um sonho. Tiramos muitas fotos e nos deslumbramos com aquele presente da natureza. Mas como nem todo dia é dia santo, na vez seguinte, o vento sobre o monte de areia fez aqueles pequenos grãos nos surrarem a ponto de descermos correndo com as pernas ardendo pela força com que éramos atingidos. O instinto nos dizia para corrermos antes que não conseguíssemos mais manter os olhos abertos. Já a boca não teve jeito, pois mastigar um pouco do que o ar carregava seria inevitável. Foi quando aprendemos que dia de vento não era adequado para aquela distração. Os que insistiam em fazê-lo pagavam caro.

Continuando nossa programação, em um outro dia fomos conhecer a Pedra Furada Lá poderíamos assistir ao pôr do sol pelo buraco de uma grande rocha em uma parte da praia. Famosa pelo cenário criado por essa combinação, era disputada pelos turistas que procuravam o melhor ângulo para fotografar a imagem perfeita que ali se formava. Apesar do difícil acesso, era um lugar cheio de estrangeiros. Para chegar lá, fomos de buggy após um passeio pelas dunas. Voltaríamos a pé por uma colina acima da pedra, já que pela praia não seria possível. Depois de disputar uma vaga por uma bela foto com japoneses munidos de lentes superpotentes, começamos a retornar junto com um casal que fez o passeio conosco. A surpresa foi que a trilha para a descida passava na borda de um tipo de ribanceira e, quando caminhávamos, nossos pés afundavam muito, porque era uma duna com árvores embaixo. Numa dessas, meu pé acertou um galho seco de uma planta e feri um dedo. Senti um certo receio até começarmos a descer e ver a cidade se aproximando, o que nos deixou aliviados.

Foi uma caminhada mais longa do que esperávamos e chegamos cansados, mas animados. Combinamos tomar um bom banho para relaxar e nos arrumar para jantarmos juntos. No dia seguinte, voltaríamos numa romântica jardineira (um tipo de ônibus adaptado à parte da frente de uma caminhonete) para Jijoca a fim de pegar nosso carro e voltar para casa. Por este motivo, faríamos uma despedida daquele paraíso e do simpático casal que conhecemos na pousada e nos acompanhou em nossas aventuras.

Muitos anos se passaram desde que fizemos essa viagem. Com a facilidade do acesso, hoje já existe uma gama de hotéis e restaurantes para todos os gostos na região, em uma enorme exploração do turismo. Não sei até que ponto a preservação daquele bioma está sendo considerada, ou se irá sobreviver à voracidade econômica do homem. Continua sendo uma bela praia, mas imagino que a cidade não guarde mais a simplicidade e o aconchego da pequena vila de outrora e que a paisagem não deva ser a mesma.


18/03/2023


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