sábado, 23 de novembro de 2024

Onde moram os gênios


A gente sempre espera encontrar um museu a céu aberto quando está na Itália, mas é verdade também que esse mergulho no passado pode causar diferentes sensações através desse túnel do tempo. Explico: não é como se todo lugar levasse ao mesmo período de uma época, como o império romano, por exemplo, tal qual Roma. Tive esse sentimento ao chegar em Florença. Era como estar no cenário de um livro de Shakespeare ou algo do tipo.

Era tarde quando chegamos de Veneza, então, ao sairmos para reconhecer o entorno, já havia escurecido. Mesmo não sendo a visão ideal, ficamos bastante impressionados com a beleza e o estilo diferente da Catedral Santa Maria del Fiore ou Duomo. Ela ficava no caminho do mercado e foi outro lugar pelo qual passamos diversas vezes. Em uma delas, entramos para conhecer todo o seu esplendor: subterrâneos, túmulos e anexos como o batistério e o Museo Dell'Opera de Duomo.

O Mercado Central foi a primeira boa descoberta, um lugar para explorar a gastronomia toscana. Queijos, presuntos, vinhos e quitutes. São muitas opções de degustação e um astral que nos levou a elegê-lo como parada obrigatória, antes de retornarmos para o hotel ao final de um dia de passeios. Lá nos alimentávamos e nos aquecíamos com algumas taças de vinho em noites muito frias.

Seguindo o nosso roteiro, a primeira visita foi à Igreja Santa Maria Novella e ao convento anexo. Tudo grandioso e de um estilo bem típico e único daquela região. O interior recoberto de pinturas que retratam passagens da bíblia é de uma beleza ímpar. O colorido nas pinturas retratadas no altar impressiona. Essa construção foi patrocinada pelos ricos cidadãos da cidade, na Idade Média. Grandes artistas da época foram responsáveis pelas diversas obras encontradas em seu interior, inclusive Michelangelo, o qual, na ocasião, era um iniciante. No púlpito dessa basílica foram feitas as primeiras acusações a Galileu, sendo portanto, um lugar cheio de história.

Conhecemos o Palazzo Vecchio, hoje sede da prefeitura da cidade. Dentro dele um enorme museu guarda obras de diversos grandes artistas italianos. Sua arquitetura tem traços de um castelo e possui uma torre, a Torre de Arnolfo, um símbolo do lugar. Logo na entrada uma fonte com um deus grego dá um toque de beleza. As lembrancinhas medievais são o que há de precioso. Comprei um pequeno cavaleiro templário que adorei. Um dos seus salões foi utilizado nas filmagens de Inferno, com Tom Hanks, e aproveitamos para observar os detalhes dos ambientes exibidos no filme.

Não podíamos deixar de ir à Galeria da Academia, a primeira de desenho da Europa e onde estão algumas das mais belas obras de Michelangelo. Lá tiramos fotos ao lado da estátua de Davi, a mais famosa delas. Fomos também à Galeria Uffizi, onde vimos algumas pinturas dele e de outros ícones renascentistas. Esse lugar guarda a belíssima pintura O Nascimento de Vênus, de Botticelli, a qual encanta qualquer um. Comprei algumas lembrancinhas com a reprodução dela, porque não tem como não o fazer, ante os seus encantos. Além disso, como a galeria é ornada com as estátuas dos gênios italianos da arte e da ciência, tirei fotos com as de: Da Vinci, Galileu, Michelangelo e Dante Allighieri.

Por fim, embora semelhante a outras de Florença, entramos na Igreja ou Piazza de Santa Croce, em italiano. Nela encontramos pinturas e esculturas que são incríveis obras de arte, além de afrescos dos artistas Giotto e Donatello. Ela é famosa não somente por isso, mas também por abrigar diversas tumbas de grandes nomes como Galileu, Maquiavel e Michelangelo. Um fantástico mergulho no passado histórico-cultural da cidade.

Se já foi indescritível andar pela marcante Florença, vê-la de cima estando na Piazzale Michelangelo era o que faltava. De lá se tem uma visão panorâmica e a primeira construção que vemos é o Duomo de Florença e, mais ao longe, a Torre de Arnolfo. Foi uma longa caminhada para subir até lá, mas valeu a pena por tudo o que vimos e fotografamos.

Como na maioria das cidades que visitamos, ela também é cortada por um rio, o Arno. Este banha a região da Toscana e proporciona uma bela visão no final da tarde e à noite, com o reflexo das luzes e a vista da Ponte Vecchio, a ponte de pedra mais antiga da Europa. É bem diferente de todas que já tínhamos visto, pois possui casas e lojas suspensas. É uma curiosidade à parte e proporciona registros imperdíveis.

Uma das coisas mais divertidas que aconteceram foi descobrir, após alguns dias, ouvindo música brasileira no café da manhã, que o garçom do refeitório era baiano. Logo no início, ficou inibido de nos contar, mas depois que perguntamos sobre as músicas, tivemos essa boa surpresa. Esse hotel foi uma escolha acertada. Além do agradável café, era bem localizado, próximo dos maiores pontos de interesse e da estação central, o que facilitou duas viagens de bate e volta, que ainda fizemos. Mas isso é assunto para um outro texto. Ufa! Haja história!

23/11/2024

terça-feira, 22 de outubro de 2024

A Veneza original

Ponte Rialto                                    Feirinha no barco


É preciso especificar porque ela inspira outras Venezas, como a brasileira e a francesa. Além disso, existe a distinção entre Veneza e Mestre. A primeira é a ilha e a segunda, a parte do continente. Então é necessário decidir onde se hospedar. De uma para outra, são poucos minutos de trem ou ônibus. Ficar em uma ou outra tem suas vantagens e desvantagens. Escolhemos ficar em Mestre e o nosso hotel era adorável. Nos dois dias e meio lá, com muita facilidade, usamos o trem para ir até a ilha.

No primeiro dia, conforme recomendado, fomos nos perder nas ruelas cortadas por canais e pontes, onde tiramos muitas fotos típicas. Um verdadeiro labirinto! O objetivo era chegar na Praça San Marco, onde fica a Basílica de mesmo nome, o lugar mais famoso da região. Normalmente, repleto de turistas, torna-se difícil conseguir uma foto sem parecer um ponto na multidão. Na ocasião, com os primeiros casos de Covid, o lugar esvaziou e poucas pessoas ainda andavam por lá. A vantagem foi não disputarmos cada centímetro daquele chão e tirarmos ótimas fotos com a Basílica, o Campanário e o Palácio Ducal como pano de fundo.

O segundo dia foi para explorar as suas pontes icônicas. A dos Suspiros guarda a história dos antigos prisioneiros que, ao passarem por ela, davam o derradeiro suspiro ao ver a cidade pela última vez, antes de entrarem na prisão. A Rialto, conhecida como a Ponte dos Amantes, é a mais famosa. Cheia de lojas de suvenires e muitos arcos. Lá comprei um gracioso e diferente brinco azul. É uma construção com quase a idade do Brasil. Bonita de se ver, fotografar e aproveitar um pouco de sua paisagem, coroada por pássaros brancos. A ponte Dell’Accademia, construída no século XIX, em madeira e ferro, é bem arqueada e lembra as usadas em jardins e parques. Para contrastar com as outras, em 2007, foi erguida a da Constituição, uma ponte moderna, cujo projeto foi elaborado pelo mesmo engenheiro responsável pelo Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Sempre a utilizávamos para entrar e sair da parte mais antiga da ilha.

Nesse dia, também exploramos as mais belas paisagens de onde tínhamos uma ampla visão da parte histórica e do mar, de águas esverdeadas, com muitos barcos e construções.

Não andamos de gôndola, mas vimos dezenas delas ancoradas, aguardando turistas. Vimos, também, nos canais, barco de frutas e verduras, numa pequena feira ambulante. Nas ruelas, cheias de lugares para comer e pequenas lojas, desfrutamos da pizza mais gostosa que encontramos na Itália e compramos pequenas garrafas de Limoncello, um delicioso licor à base de limão siciliano. Além disso, não resisti e comprei algumas lembrancinhas com a cara da cidade e umas poucas bijuterias, porque eram muito diferentes. Então encerrei as compras.

O dia seguinte foi para dar o último passeio com ar de despedida para, à tarde, seguir viagem. Mais uma estação de trem e mais uma gostosa jornada por trilhos, dessa vez com destino a Florença.

22/10/2024

domingo, 15 de setembro de 2024

Bilhetes para Julieta

 

Ponte Scaligero e Arena de Verona


Ela nunca existiu, mas sua estátua e sua casa estão lá. É um pouco semelhante a Sherlock Holmes, em Londres, onde sua residência e objetos são peças de museu de um personagem. Sendo assim, não poderíamos deixar de tirar uma foto ao lado da apaixonada Julieta, com seus inúmeros bilhetes, deixados por turistas cheios de amor. Eis o cartão postal de Verona, uma bela cidade, conhecida por ser a moradia do famoso casal criado por Shakespeare e responsável por arrancar lágrimas do público, até hoje.

Chegamos, em uma romântica viagem de trem, partindo de Milão. Havíamos reservado um quarto, o qual foi uma surpresa para nós. Já na chegada ao endereço, nós nos perguntamos onde estava o hotel. Curiosamente não havia placa indicativa de uma hospedaria, então passamos várias vezes pela porta de entrada até decidirmos acionar a campainha, certos de que era esse o local. Fomos atendidos por uma senhora, a qual nos levou até um elegante quarto e nos entregou a chave do banheiro, que ficava em frente. Foi inusitado. Tudo muito bonito. Concluímos se tratar de uma antiga residência com vários quartos e banheiros separados.

Depois de instalados, fomos turistar. Tínhamos um dia para conhecer tudo, então aproveitamos bem. Apesar do frio, andamos pelas antigas e históricas ruas. Nossa primeira parada, por garantia, foi a casa da família Capuleto a fim de fotografar Julieta e a varanda, onde foi filmada a romântica cena, na qual ela se debruçava para falar com Romeu.

Seguindo nosso roteiro, fomos conhecer a Arena de Verona, a terceira maior da Itália, ou seja, o Coliseu da cidade. Entretanto, estava fechado, por precaução, devido aos primeiros casos da Covid no país. Mesmo assim, valeu ver toda a parte externa, bastante conservada e iluminada à noite. Rendeu uma visão e tanto e belas fotos.

Pelo fato de os principais pontos de interesse serem próximos uns dos outros, foi possível conhecermos o Castel Vecchio, a Torre dei Lamberti e a Basílica de Santa Anastácia. O Castel, originalmente o Castelo San Pietro, é uma construção estilo medieval, com um fosso de onde retiravam água do rio Adige, o qual cruza a cidade. Hoje, essa construção é um museu de peças medievais e renascentistas.

A Torre, ou o Palazzo della Regione, foi a antiga administração da cidade. Em razão da sua altura, proporciona uma extensa visão panorâmica. O prédio por seu aspecto listrado, devido aos tijolos claros e escuros, causa uma impressão única, em geral, não vista em outras construções. Ele se destaca por seus arcos e grandes escadarias externas.

A Basílica foi mais uma grande igreja, onde vimos riquezas e uma imponência salientada pelas suas colunas de mármore vermelho e suas obras de arte. Lá encontramos a história da cidade e outras informações escritas em várias línguas, inclusive em português. Além disso, nos admiramos com os diversos portais em passagens e entradas de algumas ruas, sempre com arcos, como a maioria das construções da cidade.

No centro, semelhante ao de Salzburg, encontramos conhecidas lojas, inclusive a tradicional Bialetti. Neste local, tomamos um café e compramos uma lata de um tipo intenso moído. Da mesma marca, adquirimos, também, uma pequena cafeteira italiana, invenção simples, útil e prática, a qual ainda hoje usamos todos os dias.

Entretanto, o que mais gostei foram as pontes, sobretudo a Scaligero, com a beleza dos seus arcos trabalhados, contrastando com as águas verde-esmeralda cheias de correnteza do rio Ádige. Sua fortificação a torna singular, com paisagens capazes de nos transportar para tempos nem vividos por nós.

Para terminar o dia, jantamos em frente à Arena, em um restaurante com mesas na calçada. Eram vários sob um enorme toldo. Escolhemos um, onde comemos uma deliciosa brusqueta e uma massa com vinho, algo tão cotidiano para aquele povo, que se torna natural e acessível aos visitantes.

No dia seguinte, tivemos mais uma surpresa no café da manhã do nosso hotel. Comemos em uma grande mesa clássica e fomos servidos como reis, com uma variedade enorme de pães, queijos, frutas, bolos, café e sucos. Tudo isso apenas para meu marido, meu filho e eu. Nos entreolhamos imaginando que teríamos companhia, mas não aconteceu. Era mesmo um banquete exclusivo e uma excelente despedida de Verona. Hoje, quando lembro, ainda me surpreendo com a estada nesse hotel. Um agradável inesperado!


15/09/2024

sexta-feira, 30 de agosto de 2024

A inesperada Milão

 

                                                  Catedral de Milão e interior da Starbucks


Quando eu pensava nessa cidade, o normal era vir à minha mente a ideia de modelos e passarelas, um lugar símbolo da moda. Mesmo com essa imagem, fui lá para tentar encontrar algo mais. E encontrei.

Era o início da pandemia e sem saber o que viria, passamos, com tranquilidade, por um teste de temperatura corporal na sala de desembarque. Chegando ao hotel, não demoramos muito para nos instalar e sair para nos deslumbrar com a Catedral ou Duomo de Milão, a primeira que conhecemos no estilo gótico com mármore branco-rosa na fachada. A riqueza de detalhes e o seu tamanho são o resultado de cinco séculos de construção. Dotada de inúmeras torres pontiagudas trabalhadas ou ornadas com estátuas, a visão proporcionada parecia única, ante a novidade daquele gênero.

Ao seu lado, nos deparamos com outro prédio de uma beleza clássica, a Galeria Vittorio Emanuele II, conhecida como Salão de Milão. Não conseguimos evitar a comparação com as Galeries Lafayette, loja francesa de departamentos. Na galeria italiana, encontramos as mais famosas lojas da Europa. Para todos os lados que olhávamos, encontrávamos algo para admirar, desde o piso com os símbolos do zodíaco, ao teto com suas abóbadas de vidro. A foto no centro, onde o mosaico expõe o brasão da família do último rei da Itália, a casa Savoia, é obrigatória. Além disso, é um local associado a rituais de sorte.

De lá fomos fazer o nosso primeiro brinde à Itália, um país, cuja história me fascina, e que havia colocado na lista dos sonhos. Então, celebrar isso foi natural. Mas no meio de tantas obras de arte há também o macabro, comum em um solo, o qual viveu duramente a Idade Média. Com esse espírito fomos conhecer a Igreja dos Ossos. O nome já diz tudo. Paredes repletas de crânios são a visão do visitante de uma sala destinada a esse fim nessa igreja. Algo sinistro, mas existente também em alguns outros locais. O que seria um ossário passou a ser um espaço decorado com ossos e alvo de curiosidade.

Para encontrar o que havia de mais moderno na cidade, fomos à Piazza Gae Aulenti, um pódio circular com seis metros, cercado de prédios surpreendentes. Mas Milão também tem o seu parque, o Sempione, com muito verde, um belo lago e seu Arco do Triunfo. Lá tiramos belas fotos e fomos conhecer uma antiga e enorme edificação, o Castelo Sforzesco. Ele foi tanto moradia de antigos governantes da cidade, como hospedou ícones como Carlos V da Espanha e Napoleão. Mas foi também um quartel durante diversas invasões e guerras. Hoje, restaurado e ressignificado, é um lugar cultural, contendo museus, biblioteca, pinacoteca e um espaço de exposições e conferências. Sua entrada e torres, embora do século XV, lembram uma fortaleza medieval.Já dentro é mais moderno. Na chegada, uma enorme fonte, da qual jorra águaem várias direções, dá ideia do que há para conhecer ali. Com tanto para ver, demoramos para explorar tudo.

Com o cair da tarde, partimos para a Zona Navigli, onde ficam os canais, construídos na era medieval, que cortam a cidade. Um agradável local para passear, com galerias de arte, lojas vintage e uma alegre vida noturna com bares, restaurantes e teatros ao longo da beira-canal. Tudo em antigas casas, muitas vezes com mesas sob toldos, as quais se enchem de clientes, e mostram bastante movimento em suas ruas de pedra. Por ali não nos demoramos, porque o frio noturno não estava para locais abertos.

No nosso último dia, nessa agradável cidade, caminhamos pelas antigas ruas do centro histórico, onde conhecemos a maior e mais impressionante Starbucks da Europa. Não estava no nosso roteiro, mas ao cruzarmos a porta desta cafeteria, a nossa surpresa foi do tamanho da loja. Tomados pela empolgação, tivemos que nos render àquele lugar, estilo fábrica, e depois de olhar tudo, nos sentamos para um café. E que café! Mas ainda havia mais para

nos encantar, então fomos até as Colunas de San Lorenzo, com seus grandes arcos, a única construção restante do Império Romano na cidade. Devido ao seu tamanho, o modo como foram erguidas ainda é um mistério. Aproveitamos e entramos na Basílica de San Lorenzo Maggiore, onde vimos a estátua de Constantino, famoso imperador e autor do Édito de Milão.

Saímos de lá pela Porta Ticinese, monumento medieval em frente às colunas, finalizando nossa caminhada pela Porta Ticinese Napoleônica, a qual lembra um arco grego. Ambos os portais foram construídos para servirem de portões da muralha da cidade, erguida antes de Cristo. Nada como sair por portas repletas de história.

30/08/2024

sábado, 10 de agosto de 2024

Um stopover com Van Gogh

 Obra Quarto em Arles (Van Gogh)  

Um stopover de um dia seria o “possível” para conhecer a disputada Amsterdam. A cidade mais turística da Europa é também a casa do Museu Van Gogh. Lá começamos nosso pequeno tour.

Ao ver cada quadro desse genial artista, pensava no quanto parecia surreal estar ali. Não parava de lembrar do dia em que assistira, ainda adolescente, a um filme biográfico sobre ele. De lá, além de fotos e recordações, trouxe suvenires com a minha gravura favorita desse pintor.

Maravilhados, fomos para a praça dos museus. Embora estivesse um dia frio e chuvoso, conseguimos ver a beleza daquele campo arborizado, com um lago que se transforma numa pista de patinação no inverno. Ao seu redor, clássicas e modernas construções nos impressionaram e nos incentivaram a fazer diversos registros fotográficos em vários ângulos.

Por sermos leitores da trajetória de Anne Frank, a autora do diário mais famoso do mundo, era nosso principal objetivo naquela breve passagem, conhecer a casa, a qual tinha sido o esconderijo de toda a sua família, na época da Segunda Guerra Mundial. Mesmo usando de muita imaginação, não fui capaz de pensar em um lugar tão claustrofóbico. A história se torna ainda mais chocante, quando vemos de perto aquele cenário.

Tocados pelo testemunho da casa dos Frank, seguimos para um passeio pelas estreitas e tradicionais ruas de Amsterdam, seguindo o seu cartão postal, o canal que atravessa a cidade e é cortado por inúmeras pontes. Nesse trajeto, vimos não apenas as bicicletas, um dos principais meios de transporte na cidade, mas também vários artefatos lançados no canal. Isto obriga o governo local a periodicamente fazer uma limpeza para retirá-los.

Após vermos as paisagens, pelas quais ansiávamos conhecer, fomos jantar em um pitoresco restaurante, bem ao gosto dos brasileiros. Sua decoração é pautada em porta-retratos com fotos de família e dos visitantes. No cardápio, escolhemos um cozido, por se tratar de um prato próximo da nossa realidade. Trazido em panelinhas, nos conquistou pelo sabor diferenciado e pela forma como foi servido.

Para quem teve menos de um dia completo em razão do atraso de um voo, que nos obrigou a desistir do passeio de barco pelo rio Amstel, o qual corta a cidade, foi um feito digno do nosso corrido stop over. Os famosos moinhos e coloridos jardins da Holanda? Por ora, ainda repousam na lista de desejos.

sábado, 22 de junho de 2024

Na sagrada obra-prima


                          Passadiço                                 Gotemburgo I                          Sagrada Família     

Ao desembarcarmos na agitada Barcelona, a capital da Catalunha, não imaginávamos nos depararmos com a sua avenida mais famosa, a Rambla, apinhada de turistas, primordialmente, orientais. Nosso hotel ficava na Plaça Reial, outro ponto de vai e vem de turistas, feirinha, restaurantes e até de passagem de grupos devotos Hare Krishna, cantando e dançando. Apesar do barulho desses transeuntes e comerciantes, isso não era um problema já que havia isolamento acústico no quarto.

Como já era final de tarde quando nos instalamos, fomos passear pela Rambla e pelo famoso mercado La Boqueria, por serem próximos da Reial. Ao entrarmos lá, avistei framboesas em uma das barracas, apetecida peguei uma caixa e fui pagar. Infelizmente tive a lamentável surpresa de ser repreendida pelo vendedor que me insultou por ter pego a caixa. Para ele, eu não poderia pegar nada antes de pagar. Atitude a qual nunca havia vivenciado em países por onde já passei, principalmente em um mercado público. Mas o mal não foi muito além, pois em uma banca próxima, comprei minhas frutas naturalmente. Como já era hora de jantar, aproveitamos e comemos deliciosas iguarias em um dos quiosques e tomamos um bom vinho da casa.
 
No dia seguinte, foi ocasião de conhecer o bairro Gótico com suas ruelas e incríveis construções medievais e igrejas cheias de opulência, como a Catedral de Barcelona e a Basílica Santa Maria del Pi. Há também a imperdível Calle de Bispe, onde existe o conhecido passadiço "Ponte del Bispe”, construído em 1928, um dos últimos restantes. Era usado principalmente na época das pestes, para que os nobres não precisassem caminhar entre os pobres nas ruas. Foi nas imediações desse bairro que passamos pela hilária loja "Caganer", com bonequinhos com as calças arriadas em posição "fecal", representando milhares de personagens reais e fictícios do mundo inteiro, do papa aos astros do rock, incluindo os robozinhos de Star Wars. É claro que compramos um.

O próximo passeio seria a nossa primeira experiência com as obras de Gaudí: o Parque Guell. Um lugar de lazer lotado de visitantes de dentro e de fora da cidade. Um espaço que combina natureza e arte. Casas, arcos, colunas, torres, bancos, animais, paredes, tudo ao estilo Gaudí com suas curvas e detalhes em azulejo colorido. De lá pudemos gozar de uma grande visão da cidade e o que não faltou foram recortes fantásticos de cantos e recantos para fotografarmos. Ficamos empolgados com o aspecto único encontrado.

No entanto, havia muito mais desse genial arquiteto catalão, então almoçamos e fomos andar pelo bairro de Grácia, onde encontramos a primeira construção dele, a casa Vicens, repleta de seu estilo e para impressionar, como tudo o que ele projetava. Logo depois, vimos a casa Fuster. Após nos deliciarmos com os prédios desse lugar, onde cada edifício antigo parecia uma obra de arte, chegamos ao êxtase com a visão das casas Batlló e Milá. Começando a anoitecer então, vimos quando essas casas, uma próxima da outra, foram iluminadas com luzes projetadas para exaltar a beleza do lugar, acentuando a admiração do visitante. Foi um presente poder ver de perto o fruto de uma mente tão ímpar e criativa. Além dessas, havia a casa Amatller, a vizinha diferente, mas também extraordinária em seu estilo germânico, saltando também aos olhos do turista já sem palavras para definir toda aquela visão.

Como não faltam parques para conhecer, fomos nos perder no Parc del Labirint d'Horta, com seu labirinto de plantas, onde nos divertimos, procurando uma saída. De lá fomos para um lugar com uma bela paisagem marítima, o Calçadão de Madeira no Porto, a Rambla del Mar, uma passarela com linhas onduladas que leva ao Shopping Maremagnum. Para chegarmos lá, passamos pelo Monumento a Colombo, com uma estátua do navegador, de sete metros, situada no topo de uma coluna de ferro de 60 metros, uma imagem difícil de enquadrar pelo seu tamanho. Da marina vimos gigantescos navios e aves marinhas. Além disso, tivemos a sorte de vermos ancorado no porto o navio sueco à vela, Gotemburgo. Ele é uma réplica do também sueco East Indiaman Gotemburgo I, da Companhia das Índias, lançado em 1738 e afundado em 1745.

É preciso dizer, entretanto, que de todas as maravilhas vistas por nós na Espanha ou fora dela, nada se compara à basílica Sagrada Família, a rainha das igrejas, a obra-prima de Gaudí, que vem sendo construída há mais de 100 anos. Difícil de descrever ou comparar, considerando-se suas características, nunca reproduzidas em um templo católico. Suas inúmeras torres com detalhes e significados próprios protelaram a conclusão desse inimaginável monumento, que reúne o grande, o inusitado, o sagrado, e o surpreendente. Lá comprei um livro sobre as obras de Gaudí, porque depois de conhecer aquela criação, senti a necessidade de compreender a cabeça e a trajetória desse espírito cheio de inovação e talento, mesmo um século depois de sua maior realização. Algo que se tornou um mito, um motivo de controvérsia e discussões políticas. Contudo, a exuberância e fascínio que exerce são maiores que qualquer entrave surgido em seu caminho.

Após essa visita, tivemos a sensação de que não precisávamos ver mais nada naquela cidade. Mas, meu filho não queria ir sem conhecer o "Arco do Triunfo" de lá, então encerramos nossa passagem por Barcelona, depois de tirar boas fotos na via onde ele se projeta, o passeio de Lluís Companys. Uma avenida onde foram colocadas estátuas de bronze, representando as personalidades notáveis da história da Catalunha.

Cansados da longa viagem, decidimos antecipar nossa volta para Madri a fim de pegarmos o voo de volta, o que nos revelou a surpresa de ver um outro lado do centro, o qual não havíamos visto, com bares antiquíssimos em ruas cheias de beleza e um ar nostálgico. Foi uma empolgante despedida da Espanha e, para tanto, comemos um churrasco argentino no "Gaúcho", um restaurante atrativo para brasileiros e bem recomendado. Um bom fim de estrada.

22/06/2024

Tirando o chapéu

 

 

 
     Real Alcázar                               Nau no Rio Guadalquivir                              Plaza de España 

Ao sair de Madrid para a região da Andaluzia, o caminho natural seria Sevilha. Assim, desembarcamos de trem na terra mãe do flamenco. Como o próximo transporte seria o ônibus, tratamos de nos situar na única cidade grande da Europa, na qual utilizamos esse meio de locomoção. Foi estranho, mas com a modernidade da Internet e a organização da cidade foi fácil descobrir as linhas que nos levariam aos locais de interesse.

No primeiro dia, já fomos conhecer o agitado bairro de Triana. Sua famosa ponte sobre o rio Guadalquivir estava cheia de transeuntes, pelo espírito de descontração e agito dos restaurantes, bares e barracas abertos até a noite por ser um sábado. Após nos encantar com a beleza do reflexo das luzes da cidade sobre o rio e tirar fotos do lugar, demos uma volta pelas ruas próximas, jantamos e voltamos para o hotel, empolgados com a primeira impressão.

Começamos nosso roteiro, visitando a Catedral de Sevilha, inserida em um local de construções medievais, onde é possível voltar no tempo também por meio de um passeio em charmosas charretes. Lá entramos, pela primeira vez, em uma arena de touradas. Seria a praça de touros Real Maestranza, a mais antiga e de maior tradição da Espanha. Não que concorde com a prática do tratamento dado aos touros, mas não deixa de ser um lugar inexistente em nossa cultura e cercado de histórias que inspiraram filmes, músicas e óperas, entre outras demonstrações culturais. Algo tão novo, que não havíamos visto em outros países e enxergamos como uma espécie de Coliseu para touradas. Como fica perto do rio, fizemos uma agradável caminhada pela orla, onde nos empolgamos com uma réplica de uma nau do tempo dos descobrimentos e vimos a Torre del Oro. Um lugar inspirador.

Após almoçarmos uma deliciosa paella com vinho da casa, no centro da cidade, fomos conhecer a Plaza de España, no Parque Maria Luisa. Não havíamos imaginado a beleza e o quão agradável poderia ser. Assim que se abriu diante dos nossos olhos aquele espaço, envolto por uma grandiosa construção semicircular em estilo mouro, foi de tirar o fôlego. Ela representa os quatro antigos reinos da Espanha e é contornada por um fosso de águas esverdeadas com inúmeras pontes que dão acesso aos edifícios. Ao centro existe uma fonte e, nas paredes da Plaza, pisos em azulejo com pinturas coloridas, as quais representam as diferentes províncias da Espanha. Em um de seus terraços, moças dançam flamenco em um animado espetáculo repleto de espectadores, os quais ao final deixam moedas em retribuição à pequena apresentação.

Não sabíamos, mas havia muito mais para nos encantar no parque cheio de belos animaizinhos, lagos, e uma pequena cachoeira. Ao sair de lá, ainda tivemos uma boa surpresa ao nos deparar com a visão do lindo jardim da Plaza de América todo iluminado, com um lago à frente do museu de Artes y Costumbres, uma construção de uma fachada caprichosamente criada para impressionar.

Havia, ainda, um monumento repleto de belezas para conhecermos. Era o Real Alcázar, um extenso palácio composto por edifícios de diferentes épocas e impressionantes jardins cheios de estilo. A fortificação original foi construída sobre uma antiga edificação romana, tomada pelos povos germânicos e bárbaros. Posteriormente, foi conquistada pelos muçulmanos e, por fim, passou a ser uma construção cristã, mas com grande parte da sua estrutura conhecida como é hoje, criada pelo longo reinado dos mouros, antes de pertencer aos castelhanos. É impressionante a arquitetura de riqueza e pompa, predominantemente, no estilo árabe, com seus arcos em formato de ferradura, tetos e paredes com pintura moura.

Após essa visita cheia de detalhes, aproveitamos para passear pelo entorno e almoçamos uma deliciosa massa com uma jarra de sangria. Depois de bater perna pelas antigas ruas do centro, foi hora de assistirmos a uma apresentação de flamenco com bailarinos profissionais. Como berço dessa dança e música, lá seria o lugar ideal para essa programação. É um espetáculo encantador acompanhado por instrumentos de cordas e percussão numa mistura de violão, palmas, sapateado e dança. Hoje, como símbolo da cultura espanhola e patrimônio imaterial da humanidade, remontam à mistura de diversas culturas como a árabe, judaica e cigana.

Cidade cheia de lugares surpreendentes, Sevilha possui uma construção única denominada Metropol Parasol e conhecida como Cogumelos da Encarnação, à qual fomos a pé pelas ruas do centro antigo. Sob essa que é a maior estrutura de madeira do mundo, também conhecemos uma área de escavações arqueológicas romanas e árabes, da época em que Roma dominava parte das terras espanholas.

Sendo nosso último dia na cidade, não podíamos ir sem comer no Mercado de Triana. Matamos a nossa vontade, atravessamos a ponte de mesmo nome e fomos fazer o último passeio às margens do Guadalquivir. Nessa hora, tomei um dos maiores sustos da vida. Meu filho foi tirar uma foto nos degraus que dão acesso às águas, escorregou e caiu no rio. Não vi, mas ouvi a zoada da queda. Em milésimos de segundos meu cérebro processou a cena e me desesperei. Mas antes que eu morresse, ele saiu do rio, molhado da cintura para baixo e conseguiu salvar a máquina fotográfica. Era inverno e a água estava gelada. O jeito foi retornarmos ao hotel para ele se trocar. Passado aquele stress, saímos para fazermos um tour de barco pelo rio Guadalquivir, a fim de vermos a cidade de um outro ângulo.

Para a nossa despedida, fomos a um bar agradável e descontraído no centro antigo e bem perto do hotel. Ao chegarmos, tirei o meu chapéu favorito e o coloquei sobre a mesa. Um ato sem volta. Lá comi a salada russa mais gostosa até ali, um típico tira-gosto espanhol. Foi uma alegre despedida. Saímos do bar já na hora de seu fechamento e, na chegada ao hotel, percebi ter deixado o gorro. Não daria para retornar, porque o bar fecharia e, no dia seguinte, cedo partiríamos para Barcelona. Fim da nossa estada e, literalmente, tirei o chapéu para Sevilha e lá o deixei.

08/06/2024

sábado, 25 de maio de 2024

No jogo dos tronos

 

   Um dos cenário de Game of Trones e Catedral de Santa Maria

Na vibe de aproveitar ao máximo nosso tempo na terra do flamenco, fizemos um último bate e volta, dessa vez para Girona, o coração da Catalunha. É um antigo principado, o qual pertenceu ao Reino de Aragão. Foi fundada por romanos, escolhida como moradia por judeus, e conquistada por muçulmanos e por Napoleão. Partimos de Barcelona, e como também é um território basco, assim que chegamos lá, nos deparamos com bandeiras e faixas separatistas em um sinal claro de inaceitação, apesar da submissão ao governo espanhol.

Começamos a andar por suas ruas antiquíssimas, estreitas e cheias de passagens sob construções, as quais ligam partes mais baixas a mais altas, por meio de escadarias. Parecida, porém diferente de outras cidades medievais pelas quais havíamos passado naquele país. O estranho foi que, ao decidirmos parar para almoçar, só encontramos restaurantes fechados ou encerrando o atendimento. Era horário da tarde e havia apenas lanchonetes e cafeterias abertas. Tivemos de lanchar, mas no fim terminamos em uma simpática cafeteria, onde comemos a melhor Tortilla da viagem, acompanhada por um vinho da casa.

Depois dessa experiência, fomos conhecer os principais pontos da cidade. As muralhas, fruto de uma história de disputas pelo seu controle, são imperdíveis. Uma construção necessária por ter sido um lugar ocupado por inúmeros povos diferentes e uma importante ponte entre Cadiz, na Espanha, e Roma. Elas foram importantes na resistência ao sitiamento realizado pelas poderosas tropas de Napoleão, que só venceram à base da fome e das doenças, uma tática usada até nos dias de hoje.

A partir das muralhas também foi possível ter uma visão daquelas que congelam o olhar por um instante. De lá se veem as partes novas e antigas. Em uma proporção bem menor, nos sentimos nas muralhas da China. É uma cidade que emociona, quando andamos por suas ruas. E pensar que ela foi sitiada dezenas de vezes e capturada em diversas ocasiões ao longo de seus mais de dois mil anos de vida!

Assim como a maioria dos visitantes, também tiramos fotos na longa escadaria da Catedral de Santa Maria, uma igreja constituída por vários estilos, face às ocupações dos seus diversos povos. Como não poderia deixar de ser, fomos visitar os locais de filmagem da série Game of Thrones, cenário de três temporadas, e que estão espalhados pela cidade. Tiramos fotos em cada um dos pontos e foi um mergulho na história. Meu filho, que acompanhou cada episódio foi o nosso guia nessa parte, tendo nossa imaginação como pano de fundo. Um tour empolgante!

Quando retornamos de lá, tivemos a oportunidade de conhecer uma curiosa loja de jogos, brinquedos e artefatos baseados em filmes. Lá encontramos o famoso trono da série Game of Thrones. Contagiados pelo espírito do filme, aproveitamos para sentar nele e fechar com chave de ouro a nossa participação nessa viagem imaginária no tempo das disputas pelo trono em um país cheio de antigos reinos e reis.

25/05/2024

sábado, 18 de maio de 2024

Arcos e neve

 


                 
                 Arquedutos romanos                            Espada templária                         Cavaleiro templário

Após conhecer Toledo, partimos de Madri para o nosso segundo bate e volta: Segóvia. Mais um patrimônio da humanidade. Dessa vez, tivemos uma grande surpresa ao sermos recepcionados por algumas paisagens cobertas de neve ao descermos do trem. Em razão da friagem do dia anterior, logo vimos a estação e os morros branquinhos ao redor.

Assim que chegamos ao que seria a entrada da parte antiga, nos encantamos com a visão dos aquedutos romanos, os quais, com seus 2000 anos, são o cartão postal da cidade. Para ficar melhor, havia um acúmulo de neve na frente, desenhando um quadro ainda mais bonito. Essa é aquela hora em que o turista fica com cara de bobo e querendo tirar centenas de fotos por minuto. Evidentemente, fizemos ali muitas poses. Depois, subimos até o acesso mais alto possível dessa gigantesca construção para apreciar a visão desse ponto.

Após o deslumbre inicial, fomos conhecer a sinistra estátua do Diabo, que tira selfies. Ele está mais para diabinho e, com ele, tiramos uma também. Depois disso, fomos conhecer a Casa de Los Picos - um estranho nome para nós - datada dos anos 1400. Ela faz jus a uma fachada de pedras de granito talhadas em forma de diamante para cumprir uma finalidade defensiva. Hoje, ali funciona uma escola de artes.

Seguindo em direção ao Centro, passamos pela Plaza de Medina del Campo, onde há um conjunto de construções governamentais medievais, no meio das quais, encontra-se a bela estátua do herói popular Juan Bravo. Ele foi decapitado após se rebelar contra injustiças sociais na época do Rei Carlos I, em uma guerra conhecida como A revolta das Comunidades de Castela. Nessa época, o Brasil havia acabado de ser descoberto e Segóvia, ainda hoje, guarda a memória de um tempo anterior, enquanto nós, ao contrário, vivemos de mudar ou apagar a nossa história.

Como a maioria das cidades espanholas, ela também tem a sua Plaza Mayor. No passado, o seu grande pátio foi um local, no qual a famosa Isabel de Castela se fez proclamar Rainha de Castela e Leão, um escândalo e ousadia para os costumes da época. Hoje, existe um coreto no centro e está cercada por restaurantes com espaço aberto, hotéis, o teatro Juan Bravo, a Câmara Municipal e a grandiosa Catedral de Segóvia. Fomos conhecer essa igreja, porque sua arquitetura gótica com detalhes majestosos impressiona. Lá vimos indumentárias de bispos dos anos 1700, cheias de imponência; órgãos e tetos de diferentes desenhos e formatos. Tudo com muita arte e riqueza refletindo o auge do poder da Igreja Católica, na Idade Média.

Após uma longa caminhada pela antiga cidade, decidimos almoçar em um restaurante de pratos típicos da região. Lá nos serviram uma jarra de vinho da casa, cuja qualidade nos conquistou, como a maioria dos vinhos tradicionalmente feitos para esses estabelecimentos. A surpresa foi o sabor dos pratos. Ao mesmo tempo que eles se assemelhavam aos da nossa culinária, tinham um especial toque ibérico, como a fabada, uma versão catalã da dobradinha brasileira.

Nosso objetivo seguinte seria conhecer alguns mirantes, de onde poderíamos ter as mais diversas vistas, desde montanhas cobertas de neve até as partes baixas da cidade. E como último ponto de visitação fomos ao Alcázar, o castelo de Segóvia, o qual nos recepcionou com uma ponte movediça ao velho estilo medieval. Usado como palácio, foi uma das moradias favoritas dos reis de Castela naquele período. Também serviu de prisão e quartel. Como hoje abriga um museu de artilharia, vimos muitas armaduras e vestimentas dos cavaleiros da Idade Média e de seus cavalos, bem como espadas, e toda a sorte de armas da época. Em particular, é um castelo bastante preservado e interessante de onde se avista uma diversidade de paisagens cheias de beleza, um estímulo aos nossos clicks.

Antes de nos despedirmos daquela cidade, vasculhamos o comércio, aproveitando para comprar suvenires. Foi quando consegui a minha espada templária, com uma bela base para acomodá-la, e uma miniatura de um cavaleiro templário, que pertencia a uma ordem militar medieval de Cavalaria da Igreja Católica. Esses artefatos me remetem a um tema que me fascina. Curiosamente, cruzamos com uma procissão de início da quaresma. Diferente das nossas, os fiéis carregavam, perfilados, um tradicional estandarte e enormes cajados adornados. Em seguida, passamos pelos aquedutos e, antes de irmos embora, demos a última olhada naqueles monumentais arcos romanos.


18/05/2024

sábado, 11 de maio de 2024

Sem espada na mão


Estávamos na expectativa de conhecer Toledo porque sabíamos que seria um mergulho e tanto no passado. Uma cidade toda preservada, dominada por árabes e romanos, e desde a entrada já encantando com uma extensa muralha digna da idade média, e contornada por um rio dando aquele ar de Castelo com ponte movediça protegida com águas cheias de jacarés. É claro que esse bicho não vimos por lá, mas no nosso imaginário sim.

Até mesmo a estação de trem da cidade tem o belo estilo daquela época, já impressionando o turista logo na chegada. Para entrar no antigo conjunto arquitetônico, subimos uma espécie de ladeira e passamos pela Puerta del sol, uma abertura na muralha no formato de fechadura. De uma estreita rua, tivemos acesso a um pátio onde tivemos uma incrível visão da parte baixa da cidade.

Em um dia em que ao final computamos 10 km de caminhada, começamos por estreitas ruas até o Centro onde nos deparamos com antigos prédios semelhantes aos que vimos em Madrid, formando a Plaza de Zocodover, um grande quadrado com um passeio cheio de lojas e restaurantes com várias saídas em forma de Arco.

Não podíamos deixar de conhecer o Alcázar (Palácio) de Toledo. Várias cidades espanholas tem o seu e esse mantém um museu militar e ruínas de construções ainda mais antigas dentro do próprio prédio. Estrategicamente localizado, seus pátios oferecem as mais bonitas vistas do entorno. De lá, tiramos fotos cheias de beleza em um ponto onde se ver as antiquíssimas pontes com seus arcos sobre o Tejo, um rio de esverdeadas águas claras. Passamos também pelas impressionantes Ermida del Cristo de la Cruz, uma mesquita muçulmana posteriormente transformada em um templo cristão, e pela  Sinagoga Santa Maria La Blanca, de influência Moura com arcos em forma de ferradura e convertida em Igreja. Passei um tempo admirando a arte islâmica, diferente da ocidental, carrega uma beleza única e extraordinária com seus desenhos geométricos e harmônicos, suas cores e seus arcos entrecruzados, ou em estilo ferradura da época dos califados.

Famintos e cansados de subir e descer ladeiras, paramos para comer em um simpático e pequeno restaurante onde nos saciamos com deliciosas e diversificadas Tapas(Petiscos) espanholas. Reabastecidos terminamos nossa caminhada pela cidade, passando nos últimos pontos históricos e nas lojinhas cheias de artigos medievais onde comprei uma réplica em miniatura de uma espada templária a qual, ao passarmos pelo raio X do trem da volta, foi vetada pelo agente da estação. Decepção resolvida na visita a Segóvia. Na idade média e até antes de se fabricar armas de fogo, a cidade era uma tradicional fabricante de espadas.

Após mais uma caminhada paramos diante da belíssima Catedral em estilo Gótico, Santa Maria de Toledo. Lá tiramos fotos em perspectiva para conseguir enquadrar seu tamanho e suntuosidade. Enfim, era hora de descer e sair da parte murada, então caminhamos até a Puerta de Bisagra, uma construção de origem muçulmana situada na divisa entre a parte nova da cidade e a parte histórica, sendo esta a principal porta. Lá tivemos uma boa surpresa ao ter uma visão bem próxima de uma enorme parte da muralha e de suas torres. Foi mais uma oportunidade de capturar imagens as quais tornaram aquele momento inesquecível.


11/05/2024

terça-feira, 23 de abril de 2024

Entre tapas e vinhos

                                 Casa das Américas e suas baratas                            Porta de Alcalar e seus tapumes

 

A lembrança da minha avó cantando "...fui às touradas de Madri tri ririririririri..." foi o primeiro pensamento que tive ao pousar na terra que ainda faz jus à velha canção. Conhecer o país das castanholas era um velho desejo da menina que, um dia, dançou de espanhola aos 8 anos de idade em um evento escolar.

A primeira visão real da cidade foi a de quem chega no inverno e se depara com as costumeiras obras dessa época, na Europa. Descemos na estação mais famosa da cidade, a do Sol e, ao redor, sem calçamento ou calçada, mal dava para andar com as malas. Mas logo vencemos aquele trecho e achamos o caminho do hotel, onde deixamos nossos pertences. Depois, fomos fazer o reconhecimento da área e comer.

Reabastecidos e dispostos, chegamos ao frequentado Parque del Retiro, onde a população relaxa, apreciando agradáveis paisagens, ou se diverte em atividades ao ar livre. Nesse lugar, também há o "Palácio de Cristal", todo em vidro. Fiquei admirada com as árvores em um curioso formato de cachos de botões, ora achatados, ora arredondados, uma poda um tanto exótica. Na saída, nos deparamos com uma tradicional loja de torrones. Lá tivemos nossa primeira experiência com esse doce típico. À noite foi hora de provar o delicioso croquete de carne da Taverna La Taurina, que nos conquistou por sua energia e ambiente agradável; um ponto de encontro de personalidades marcantes como Guevara e Orson Welles.

No dia seguinte, fomos desbravar o centro e passamos pelo antiquíssimo Cine Callao, seguindo pela famosa Gran Via, onde tiramos fotos do que nos chamava atenção como a Plaza de Cibeles, o Palácio de mesmo nome e a Casa das Américas, com estranhas réplicas de grandes baratas em sua fachada. A ideia era chegar na histórica Porta de Alcalar, o Arco do Triunfo dos espanhóis. Entretanto, só vimos a sua foto estampada no tapume gigante, encobrindo a respectiva obra de restauração. O mesmo aconteceu com o Edifício Metropolis, um antigo prédio que lembra o triangular Flatiron de Nova York.  Como dito antes, inverno é tempo de obras. Na falta, fotografamos o elegante Hotel Four Seasons, de mesmo estilo. Mas à noite, quando retornamos, a boa surpresa foi ver os edifícios ao redor da Plaza del Callao superiluminados à moda da Times Square.

No dia seguinte, retomando nosso roteiro, fomos conhecer a Plaza de España, com estátuas representando Dom Quixote e seu escudeiro, em homenagem a Cervantes, seu criador. De lá fomos ao Templo Debod, uma construção egípcia doada à cidade de Madri. Ela fica em uma elevação, a qual foi palco de sangrentas batalhas na época de Napoleão e na Guerra Civil espanhola, porém o lugar foi ressignificado com a transposição do templo, além de proporcionar uma extensa visão da cidade.

Descendo pelos Jardins de Sabatini, idealizados para embelezar o lado norte da Palácio Real, chegamos à Plaza de Oriente, de onde se veem também o Teatro Real e uma estátua do rei Felipe IV em seu cavalo. Uma área histórica cercada de construções importantes. Então um passo para o lado e estávamos na Plaza de la Armeria, que separa a Catedral de Almudena (arduamente construída por um século) do majestoso Palácio Real onde vive o Rei da Espanha. Não pudemos entrar, então ficamos a espreitar seu interior pelos portões.

Como ainda tínhamos fôlego, demos uma esticada até a Plaza Mayor, um espaço retangular, grande como o nome sugere, cercado por antigos edifícios uniformemente construídos e datados dos anos 1500, com nove pórticos, os quais servem de entrada da praça. Nessa praça há, também, uma estátua de um rei da Espanha, Filipe III, responsável pela conclusão da obra precursora desse atrativo ponto turístico.

Após um delicioso almoço típico, fomos conhecer a florida Plaza de la Villa e depois o Mercado San Miguel. Uma caminhada que no total queimou o nosso almoço, mas no fim fomos recompensados por deliciosos petiscos marinhos nesse que é um disputado espaço gastronômico. Para encerrar a noite, tomamos um autêntico Pisco peruano preparado por imigrantes do país de origem da bebida. Todos esses lugares são cuidados e oferecidos à população para o seu lazer.

É preciso dizer que a gastronomia do país vale um comentário à parte. As comidinhas de bar, conhecidas como tapas: croquetas, presuntos, queijos, tortillas, pequenos sanduíches, olivas, lulas, pães da Catalunha, ovos rotos, salada russa e outras mais eram os nossos pratos preferidos para a noite e até em alguns almoços, além da popular paella. O vinho é tão comum que tomar uma taça ou jarra nas refeições maiores era normal. Foi lá também que conheci o vermute, para nós o Martini Rosso, e passei a gostar. Uma bebida típica do país assim como o vinho, ambos produzidos em vários restaurantes, sendo esses os melhores.

No nosso último dia em Madri, antes de seguir viagem, fomos conhecer o Mercado San Antônio, onde almoçamos, e o seu entorno. Para fechar essa etapa, em uma noite fria, encaramos uma fila para visitar o Museu Reina Sofia, o qual guarda Guernica, a obra mais significativa de Picasso. Não podíamos partir sem ver a pintura cujo tema inclui uma forte história por trás. É claro que tiramos um tempo para dar a última passada na loja de departamentos mais conhecida do país, El Corte Inglés. Ela ficava no nosso caminho para o hotel, então vez por outra cortejávamos uma ou outra mercadoria. Naquele dia compramos o que usaríamos em breve, visto que iríamos encontrar várias dessas magazines no último trecho da nossa jornada espanhola, a qual estava só começando.


23/04/2024

sábado, 13 de abril de 2024

Alívio em terras lusitanas - Viagem dos sonhos parte 3

 

                                 Navio após passar sob a ponte Vasco da Gama                     Castelo dos Mouros e Palácio da Pena ao fundo

Ao aportarmos em terras lusitanas, após duas semanas improvisando um inglês básico em Londres e em solo francês, a primeira sensação foi de alívio ao podermos usar o velho e difícil português. Mais ou menos como estar em casa.

Nossa hospedagem em Lisboa ficava bastante próxima ao metrô e tivemos algumas surpresas nessa etapa da nossa viagem. A primeira foi que no hotel o café da manhã era farto como no Brasil, bem diferente de onde já havíamos passado. A parte ruim eram os constantes avisos para termos cuidado com os furtos de carteiras no metrô e um estranho vento encanado que nos pegava na rua ao lado da estação. Andávamos com roupa de verão, mas como sempre era noite quando retornávamos dos passeios, então o danado era sempre frio. Isso fazia com que eu, como "a friorenta", pagasse o mico de passar nessa rua correndo.

No primeiro dia, ansiosos por conhecer o cartão postal da cidade, fomos à Praça do Comércio de onde pudemos admirar o famoso Rio Tejo. Andamos pelas antigas ruas de casas que nos lembravam o nosso próprio passado nas cidades históricas do nosso país. Os azulejos eram as principais referências. Nos encantamos com os nostálgicos bondes. E logo descobrimos um restaurante onde almoçávamos deliciosos pratos feitos com bacalhau e comíamos pastel de Belém como sobremesa.

Estando lá, um dia em Sintra é obrigatório. Pegamos um ônibus e fomos conhecer o Castelo dos Mouros. Para percorrer suas muralhas e torres, é preciso fazer uma longa caminhada para chegar a uma parte mais alta de onde se tem uma bela vista do local. Claro que fizemos pelo menos um pit stop porque era um pouco cansativo, porém compensador ver de perto aquela típica construção do século VIII no estilo Mouro. Ao sairmos de lá, fomos conhecer o colorido Palácio da Pena, a antiga residência de verão do Rei Fernando II. Construído sobre a Serra de Sintra, isolado em seu topo, oferece uma vista completa e impressionante do local, além de ser frio até no verão. Foi a moradia favorita da família real no reinado de Carlos I, cuja esposa redecorou os principais cômodos.

De volta a Lisboa, passeamos pelas ruínas do Castelo de São Jorge, uma construção, a qual conseguíamos visualizar de várias partes do centro histórico. E como queríamos ver mais do passado dos nossos colonizadores, fomos para Belém, conhecer o Padrão dos Descobrimentos e a Torre de Belém, a cujo topo subimos por meio de estreitas escadas giratórias. Perto dali aproveitamos para visitar o belíssimo Mosteiro dos Jerônimos, onde vimos os túmulos do descobridor Vasco da Gama e do poeta Luís de Camões. Mas havíamos ido mesmo visitar o de Fernando Pessoa, grande poeta português, visto que meu marido é um dos admiradores e leitor de suas obras. Não podíamos sair de lá sem comermos um pastel de Belém, iguaria nascida lá e batizada portanto com o nome de seu local de origem, mas normalmente denominado pastel de nata no Brasil. Para tanto, fomos à famosa Confeitaria Nacional, conhecida exatamente por causa dos seus pastéis

Lisboa, no entanto, também tem seu lado moderno e por isso fomos até o parque das nações onde nos divertimos muito. Caminhamos às margens do Tejo, de onde pudemos admirar a gigantesca Ponte Vasco da Gama e até ver um enorme navio passar sob ela, porque apostávamos que ele toparia nela. Brincamos no Pavilhão do Conhecimento em seu museu interativo. Também atravessamos parte do parque em um pequeno teleférico, do qual confesso que tive medo. Mas o melhor estava por vir e era o Oceanário, o mais completo do planeta, o número 1. Ficamos fascinados. Viramos crianças abobadas diante daquele mundo marinho, onde podíamos ver de muito perto todas as espécies, sobre as quais temos mais curiosidade, desde as águas-vivas até os tubarões.

Por fim, no próprio parque, fomos para a nossa última parada, o Centro Vasco da Gama, um enorme shopping onde gastaríamos nossos últimos euros. No dia seguinte iríamos voltar para o Brasil após três semanas na Europa em nossa viagem dos sonhos.


13/04/2024

sábado, 23 de março de 2024

O segundo passo de um sonho - Parte 2

 

Louvre e sua Pirâmide de vidro

Seguindo o nosso roteiro e movidos pelo entusiasmo, partimos para viver experiências diversas e únicas, as quais guardamos no plano dos sonhos concretizados.

O Museu des Invalides, ou de l'Armée foi um dos primeiros lugares a nos impressionar com o imponente mausoléu de Napoleão em seu salão de entrada e um acervo inigualável sobre a Segunda Guerra Mundial. A sensação foi de ver a história bem de perto e mais do que no Museu da Guerra em Londres, aquele passado parecia muito palpável. Andamos por todas as salas e, após nos sensibilizarmos com tudo o que vimos, na saída nos deparamos com um mural com as quantidades de mortos correspondentes a cada país participante da guerra. Foi uma tomada de consciência impactante, a qual marcou aquele momento.

Uma outra visita significativa foi a ida ao Panthéon. Logo na entrada somos recebidos pelo curioso pêndulo de Foucault, datado de 1851, e criado para demonstrar a rotação da terra em relação ao seu próprio eixo. Lá estão preservados os túmulos de genialidades como Rousseau, Lagrange, Marie e Pierre Curie, Victor Hugo e muitos outros. A beleza dessa construção é indescritível assim como o sentimento de estarmos próximos a essas pessoas, mesmo elas não estando mais entre nós fisicamente.

Foi interessante relembrar o relacionamento de Rodin com Camile Claudel, quando visitamos a linda casa dele. Nós nos divertimos e nos admiramos tirando fotos ao lado da famosa estátua do "Pensador". Adorei conhecer as esculturas de Camile que estão lá. São lindas. Dizem que ele só despontou devido à ajuda dela, utilizando-se do talento nato da sua aluna e a desprezando, quando não foi mais necessária aos seus interesses.

O Louvre, no entanto, é algo mais. Pelo seu tamanho é preciso escolher quais as civilizações a serem visitadas, então focamos nas nossas favoritas. Apaixonados por história antiga, ficamos deslumbrados com os artefatos dos maiores impérios datados de antes de Cristo. Como não poderia ser diferente, nos apressamos em ver o quadro da diva de Da Vinci, a Monalisa. Foi uma surpresa descobrir que era uma pintura pequena comparada à nossa expectativa e à grandeza dessa obra. A segurança em torno dela é bem maior do que no resto do museu e, com razão, visto que já houve uma tentativa de ataque contra ela. Fora do museu ainda encontramos a famosa pirâmide de vidro, citada no livro "O Código Da Vinci". Ficamos tentando ver o que havia embaixo dela a fim de conferir se a descrição feita na obra era ou não uma ficção.

No bairro moderno La Défense existe o Grande Arco. Foi construído, também, em estilo moderno. Nós nos surpreendemos ao constatar que ele estava alinhado com os outros dois: o Arco do Triunfo do Carrossel e o Arco do Triunfo. Do Grande Arco é possível vermos os outros dois em uma reta. E não são próximos. Uma maravilha da Cidade Luz. Na visita ao famoso Arco do Triunfo, nos admirarmos com a riqueza de detalhes de incrível beleza e com a homenagem aos mortos na Primeira Guerra Mundial, em forma de uma pequena chama no chão, que nunca se apaga, e com o registro de centenas de nomes de soldados vítimas desse conflito. De lá, naturalmente seguimos para a avenida Champs Élysées, com suas pomposas lojas para ricos. Olhamos as vitrines só para nos divertir com os escandalosos preços das mercadorias vendidas a quem não tem mais com o que gastar.

É preciso dizer que muitas das estações de metrô são uma atração à parte e muito diferentes umas das outras. Algumas antiquíssimas em idade e estilo e outras novas e modernas, superinteressantes também. Ficávamos maravilhados com a facilidade de ir de um ponto ao outro por esse meio de transporte. Além disso, a cidade parece um museu a céu aberto com construções antológicas, monumentais, grandiosas e preservadas por toda parte onde andamos.

No último dia, desafiamos nossas pernas e subimos centenas de degraus para conhecer a Basílica de Sacré-Coeur e nos maravilhar com a vista da cidade. A parte ruim foram os vendedores de fitas coloridas, os quais reproduzem o comportamento insistente dos que fazem o mesmo na Igreja do Bonfim. Temos de ter cuidado e jogo de cintura para nos desvencilharmos deles. Mas a parte boa é a animação dos artistas que tocam na escadaria. Mesmo com os músculos doloridos pela subida, fomos bater perna no Cemitério Père Lachaise, também um ponto turístico. Lá vimos o visitadíssimo túmulo de Jim Morrisom e jazigos de lendas como La Fontaine, Edith Piaf, Allan Kardec, Chopin, Oscar Wilde, além de homenagens impressionantes a vítimas da Segunda Guerra Mundial.

Não poderíamos deixar de conhecer a mais famosa das Notre Dames na Île de la Cité.  E estando lá, são imperdíveis a Conciergerie, antiga prisão da época da Revolução Francesa e onde Maria Antonieta ficou presa antes de ir para a guilhotina, e a Sainte Chapelle, igreja com fascinantes vitrais. Foi preciso um dia inteiro para conhecermos o Palácio de Versalhes, o mais invejado e copiado pelos reis da época, com suas infinitas salas e jardins gigantescos.

Para fechar de forma glamourosa, fizemos um passeio pelo rio Sena, que banha a cidade, vendo toda a sua beleza por um outro ângulo. Foi um final tão perfeito que, no momento em que o barco retornava, era hora de começar a escurecer, e as luzes da Torre Eiffel acenderem, dando um verdadeiro show para quem a observava.

Tudo isso só foi possível porque o Brasil e o resto do mundo viviam uma outra realidade. Hoje a Cidade Luz, repleta de moradores de rua, perdeu um pouco do seu brilho, e o luxo convive com a pobreza, que aportou às margens do seu belo rio. Não há como se deslumbrar diante do cenário de abandono em que vive o povo francês.

Au revoir, Paris!


22/03/2024